domingo, março 26
segunda-feira, março 20
Tentativa de extorsão no Aeroporto Internacional de Luanda (4 de Fevereiro)
Preparávamo-nos para embarcar, vivíamos aquela agitação própria de quem está de malas feitas no Aeroporto de Luanda, a nostalgia pairava no ar… Quem vai já tem saudades da praia, do calor, da fruta, da família e dos amigos que ficam e já só pensa no trabalho e aulas que tem que recuperar e também nas contas que vai encontrar no correio quando chegar ao destino.Tanto stress: o check in que nunca abre a horas, os espertos que furam as filas, os agentes que nos reviram a mala a procura de sabe-se lá o quê, e depois riscam-nas com giz branco. A luta com o excesso de bagagem e o medo de saber se teremos ou não lugar, porque muitas vezes mesmo com OK no bilhete ficamos em terra pois um qualquer com influência nos passou a frente à última hora! Os documentos em dia e devidamente preenchidos, os talões de recenseamento militar… e outros tantos papéis que nos pedem, enfim…
Já tinha passado o balcão de imigração e dirigia-me para o segundo posto de segurança (mais uma revista), lá finalmente usa-se tecnologia. Temos alguns agentes, um que fica a controlar o monitor da máquina Raio X ou Infravermelho - desculpem a minha ignorância - e outro que fica no detector de metais. (este posto é de vital importância porque faz a triagem dos objectos perigosos a bordo)
Aí, encontro uma amiga a ser “penteada” por um agente! Ela tinha toda pinta de turista que veio pela primeira vez a Angola. (preza fácil) Era caucasiana, de pele muito clara, com sardas e sotaque de gente de fora! Nada fazia prever ao agente que se tratava de uma nativa com calos nesse tipo de situações que nos querem extorquir.
Apercebo-me que ela levava dentro da sua bagagem de mão alguns cosméticos para consumo próprio, de origem brasileira, que em Angola havia em abundância mas que no país de destino ela não encontrava. Levava a provisão suficiente para aguentar até a próxima vinda a Angola. (Nunca se sabe ao certo quando voltamos à terra mãe. Passagens muito caras e compromissos laborais são sempre os maiores impedimentos.)
O dito agente queria que ela pagasse direitos alfandegários sobre os produtos que ela levava consigo ou então teria de os deixar todos em terra! Aproveitou ainda para lhe “explicar” que cada passageiro podia apenas levar na sua bagagem um perfume, um desodorizante, um creme …, ou seja, não podia levar nada em dobro, como era o seu caso. Explicação esta que fez soltar uma gargalhada à rapariga…
Já estavam ali em debate, pelo menos uns 10 min., quando eu cheguei e apercebi-me do pequeno sururu.
Ela tinha traquejo mas desconhecia, ou não se lembrava, que nunca se paga direitos aduaneiros de um produto a saída de um país! Esse produto que ela consumia já tinha sofrido taxas alfandegárias quando entrou no país, exportado do Brasil, por esse motivo era ilegal o que o agente pedia.
Estava um pouco assustada, já se embarcava e ela ainda ali com aqueles problemas de última hora. O saco dela retido pelo agente que a todo o custo exigia uma quantia pela qual não iria passar recibo nenhum.
Com o seu traquejo e atitude firme, lá conseguiu depois de muito paleio prosseguir normalmente a sua viagem. Sem pagar nada daquilo que ele exigia, porque entretanto o agente deu conta que dali não sacava nada.
Final feliz para ela! Mas pergunto-me:
- Quantos já não caíram nessa?
Espero que os leitores que se desloquem a Angola, e se virem numa situação idêntica, se lembrem que os únicos direitos aduaneiros que se pagam são cobrados à entrada do país e nunca à saída.
“Em parte consigo entender um pouco o oportunismo do agente em causa! Ele recebe um salário mísero que não chega a meio do Mês e vê os filhos dos chefes a passarem por ele, todos bem vestidos e cheios de divisas nos bolsos. É a oportunidade que ele encontra para conseguir facturar mais algum!
Enquanto as pessoas não receberem salários dignos, em Angola continuará a haver muita gente a extorquir e corromper-se!
Infelizmente em Angola também há o reverso! Gente rica a extorquir e a corromper-se por ganância excessiva!!!”
quinta-feira, março 16
segunda-feira, março 13
Troca de Papéis
Imaginem que a TPA mesmo com o seu canal Bis passou a alternativa cedendo o primeiro lugar à Multi-escolha.
Os geradores, que eram alternativos, passaram a número um trocando com a EDEL.
Os carros cisternas trocaram de posição com a EPAL que virou alternativa.
Os autocarros públicos perderam o lugar cimeiro para os kandongueiros. São agora alternativos.
As casas de câmbio e os bancos comerciais perdem contra a eficiência das kinguilas.
As conservatórias e os serviços oficiais do Estado perdem lugar para os falsificadores do Palanca e do Pau Grande do Cazenga no tratamento de documentos essenciais.
As escolas e hospitais públicos perdem lugar para colégios e clinicas privadas.
E há tantas e tantas outras trocas de posições...
Por: Soberano Canhanga
In: www.olhoatento.blogspot.com
Os geradores, que eram alternativos, passaram a número um trocando com a EDEL.
Os carros cisternas trocaram de posição com a EPAL que virou alternativa.
Os autocarros públicos perderam o lugar cimeiro para os kandongueiros. São agora alternativos.
As casas de câmbio e os bancos comerciais perdem contra a eficiência das kinguilas.
As conservatórias e os serviços oficiais do Estado perdem lugar para os falsificadores do Palanca e do Pau Grande do Cazenga no tratamento de documentos essenciais.
As escolas e hospitais públicos perdem lugar para colégios e clinicas privadas.
E há tantas e tantas outras trocas de posições...
Por: Soberano Canhanga
In: www.olhoatento.blogspot.com
domingo, março 5
A perigosa profissão de Mãe em Angola
A agência noticiosa IPS, especializada em assuntos relacionados com o Terceiro Mundo, distribuiu uma notícia arrepiante sobre condição de mãe em Angola..
Por: Karen Iley
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Luanda, 28 de Fevereiro de 2006
A falta de educação pré-natal e o difícil acesso a cuidados médicos fazem com que a gravidez e o parto sejam particularmente perigosos para as mulheres de Angola. (…) Ao entrar na maior maternidade de Luanda, capital de Angola, o que primeiro chama a atenção do visitante é o cheiro nauseabundo que mistura sangue e excrementos. Quando o estômago se acostuma e os olhos se ajustam à escassa luz da Maternidade Lucrécia Paim, começa a revelar-se em toda a sua magnitude uma paisagem de paredes rachadas e janelas partidas.
Uma mulher em avançado estado de gravidez, com fortes dores, incapaz de encontrar alívio, anda de um lado para o outro no corredor, amarrando e desamarrando o seu sujo sarong (saia tradicional). Não usa roupa interior, enquanto se encosta a parede, exausta e queixando-se, o sangue escorre entre as suas pernas até ao chão. Ninguém a ajuda… nem mesmo uma palavra amável… ninguém limpa o sangue… O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informa que para cada mil partos 17 mulheres morrem em Angola. A possibilidade de uma Angolana morrer na gravidez e no parto é de 1 em 7, muito superior à média de 1 em 16 para toda África subsariana e muito pior do que a média de 1 em 2000 das europeias e de 1 em 3000 das norte-americanas.
(…) O país desfruta agora do seu quarto ano de paz, mas ainda sofre de uma generalizada carência de instalações de saúde básicas. Além disso, as estradas são intransitáveis por causa da péssima conservação e pela presença de minas terrestres não detonadas, o que torna inacessíveis os poucos serviços existentes para a população de vastas áreas distantes das cidades. (…)
(…) “Faltam instalações, mas as mulheres também procuram ajuda tardiamente”, disse Maryse Ducloux, coordenadora assistente do ramo Belga da Organização Médicos sem Fronteiras. Muitos partos ocorrem sem assistência técnica e, por essa razão, complicações comuns acabam em morte. (…)
Angola apresenta uma lista quase infinita de necessidades muito graves relativamente à saúde materna. (…) O panorama é desanimador num país onde muitas mulheres carecem de acesso à educação e de maiores perspectivas para além da maternidade. As mulheres em Angola têm em média, 7 filhos. 70% Dão a luz ao primeiro quando ainda são adolescentes. A informação sobre planeamento familiar é escassa. Quem exerce medicina nestas áreas considera que as mulheres dispostas a utilizar anti contraceptivos ou a espaçar os nascimentos enfrentam o desagrado dos seus companheiros, que costumam ver esse desejo como uma afronta à sua virilidade.
Na Maternidade Lucrécia Paim, Teresa Miguel (nome fictício) sofre as consequências da falta de investimento na saúde, ao acompanhar a sua irmã mais nova, Lúcia, de 21 anos e grávida do 2º filho. A sua família vive em Viana, um Bairro pobre perto do centro de Luanda. Apesar da curta distância, Lúcia chegou ao hospital muito tarde… a menina nasceu morta. Com lágrimas correndo pelo rosto, Teresa Miguel, coloca a sua cabeça entre as mãos e reza em voz alta com a sua irmã, ainda na sala de imergência e com hemorragia. As enfermeiras mandaram-na comprar remédios para a irmã, mas de tão aflita não sabe o que realmente comprar nem onde ir, poucos minutos depois está de volta a sala de emergência muito nervosa e com as mãos vazias.
Uma jovem de 16 anos olha-a com ansiedade enquanto acaricia o seu ventre inchado. “Se uma mulher não tem dinheiro para comprar os remédios e as gazes, não consegue tratamento”, conta, apertando na sua mão uma nota de 200.00 Kwanzas (2 €). Ela, Lúcia e a mulher que preambula pelo corredor deixando sangue pelo chão podem ser consideradas afortunadas. Pelo menos vivem perto e têm acesso a cuidados básicos. A maioria das mulheres no vasto interior de Angola frequentemente têm de se virar sozinhas.
A falta de educação pré-natal e o difícil acesso a cuidados médicos fazem com que a gravidez e o parto sejam particularmente perigosos para as mulheres de Angola. (…) Ao entrar na maior maternidade de Luanda, capital de Angola, o que primeiro chama a atenção do visitante é o cheiro nauseabundo que mistura sangue e excrementos. Quando o estômago se acostuma e os olhos se ajustam à escassa luz da Maternidade Lucrécia Paim, começa a revelar-se em toda a sua magnitude uma paisagem de paredes rachadas e janelas partidas.
Uma mulher em avançado estado de gravidez, com fortes dores, incapaz de encontrar alívio, anda de um lado para o outro no corredor, amarrando e desamarrando o seu sujo sarong (saia tradicional). Não usa roupa interior, enquanto se encosta a parede, exausta e queixando-se, o sangue escorre entre as suas pernas até ao chão. Ninguém a ajuda… nem mesmo uma palavra amável… ninguém limpa o sangue… O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informa que para cada mil partos 17 mulheres morrem em Angola. A possibilidade de uma Angolana morrer na gravidez e no parto é de 1 em 7, muito superior à média de 1 em 16 para toda África subsariana e muito pior do que a média de 1 em 2000 das europeias e de 1 em 3000 das norte-americanas.
(…) O país desfruta agora do seu quarto ano de paz, mas ainda sofre de uma generalizada carência de instalações de saúde básicas. Além disso, as estradas são intransitáveis por causa da péssima conservação e pela presença de minas terrestres não detonadas, o que torna inacessíveis os poucos serviços existentes para a população de vastas áreas distantes das cidades. (…)
(…) “Faltam instalações, mas as mulheres também procuram ajuda tardiamente”, disse Maryse Ducloux, coordenadora assistente do ramo Belga da Organização Médicos sem Fronteiras. Muitos partos ocorrem sem assistência técnica e, por essa razão, complicações comuns acabam em morte. (…)
Angola apresenta uma lista quase infinita de necessidades muito graves relativamente à saúde materna. (…) O panorama é desanimador num país onde muitas mulheres carecem de acesso à educação e de maiores perspectivas para além da maternidade. As mulheres em Angola têm em média, 7 filhos. 70% Dão a luz ao primeiro quando ainda são adolescentes. A informação sobre planeamento familiar é escassa. Quem exerce medicina nestas áreas considera que as mulheres dispostas a utilizar anti contraceptivos ou a espaçar os nascimentos enfrentam o desagrado dos seus companheiros, que costumam ver esse desejo como uma afronta à sua virilidade.
Na Maternidade Lucrécia Paim, Teresa Miguel (nome fictício) sofre as consequências da falta de investimento na saúde, ao acompanhar a sua irmã mais nova, Lúcia, de 21 anos e grávida do 2º filho. A sua família vive em Viana, um Bairro pobre perto do centro de Luanda. Apesar da curta distância, Lúcia chegou ao hospital muito tarde… a menina nasceu morta. Com lágrimas correndo pelo rosto, Teresa Miguel, coloca a sua cabeça entre as mãos e reza em voz alta com a sua irmã, ainda na sala de imergência e com hemorragia. As enfermeiras mandaram-na comprar remédios para a irmã, mas de tão aflita não sabe o que realmente comprar nem onde ir, poucos minutos depois está de volta a sala de emergência muito nervosa e com as mãos vazias.
Uma jovem de 16 anos olha-a com ansiedade enquanto acaricia o seu ventre inchado. “Se uma mulher não tem dinheiro para comprar os remédios e as gazes, não consegue tratamento”, conta, apertando na sua mão uma nota de 200.00 Kwanzas (2 €). Ela, Lúcia e a mulher que preambula pelo corredor deixando sangue pelo chão podem ser consideradas afortunadas. Pelo menos vivem perto e têm acesso a cuidados básicos. A maioria das mulheres no vasto interior de Angola frequentemente têm de se virar sozinhas.
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Artigo cedido gentilmente por:
Denudado
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Não bastava já sermos o segundo pior país do Mundo para se nascer, também as nossas mães têm de sofrer? Até quando Angola???
quinta-feira, março 2
NO COMMENTS
domingo, fevereiro 26
sexta-feira, fevereiro 24

Ainda a propósito do último post… Uma notícia deveras triste, chocante e vergonhosa. (fico a dever muitos mais adjectivos para qualificar esta notícia)
ANGOLA É O SEGUNDO PIOR PAÍS DO MUNDO PARA SE NASCER.
Tanto petróleo (segundo maior produtor de petróleo, de África), tantos diamantes e só uns é que gozam…
Como cidadão de um país com essa estatística, sinto-me envergonhado. Amo a minha pátria, mas envergonho-me dos meus dirigentes que se dizem patriotas. Se eu fosse governante de um país que tivesse esse ranking, não conseguiria dormir a noite. Mas isso sou eu…
Quase de certeza que eu também seria um governante corrupto. Meus Srs. não sou hipócrita!.. a ocasião faz o ladrão e numa sociedade como a nossa em que os cidadãos não se manifestam, mais fácil é roubar. Eu também roubaria o meu quinhão, afinal Angola é tão rica… tãaao rica… mas tãaaaao rica que chega para roubar e mostrar obra, nem que seja só para “Inglês ver”.
Exmos. Srs. que reinam Angola por favor olhem para esses números, ponham a mão na consciência, ou no pouco que resta dela.
A desculpa de outros tempos era a guerra! E agora???
ANGOLA É O SEGUNDO PIOR PAÍS DO MUNDO PARA SE NASCER.
Tanto petróleo (segundo maior produtor de petróleo, de África), tantos diamantes e só uns é que gozam…
Como cidadão de um país com essa estatística, sinto-me envergonhado. Amo a minha pátria, mas envergonho-me dos meus dirigentes que se dizem patriotas. Se eu fosse governante de um país que tivesse esse ranking, não conseguiria dormir a noite. Mas isso sou eu…
Quase de certeza que eu também seria um governante corrupto. Meus Srs. não sou hipócrita!.. a ocasião faz o ladrão e numa sociedade como a nossa em que os cidadãos não se manifestam, mais fácil é roubar. Eu também roubaria o meu quinhão, afinal Angola é tão rica… tãaao rica… mas tãaaaao rica que chega para roubar e mostrar obra, nem que seja só para “Inglês ver”.
Exmos. Srs. que reinam Angola por favor olhem para esses números, ponham a mão na consciência, ou no pouco que resta dela.
A desculpa de outros tempos era a guerra! E agora???
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Noticia Angonotícias a ler na íntegra clicando aqui
terça-feira, fevereiro 21
As crianças são o amanhã!
As crianças são o amanhã… são o futuro e são muitas outras coisas que nós, os adultos, dizemos porque fica bem. Mas as crianças que são isso tudo são no melhor dos casos as nossas. Os nossos filhos, irmãos, sobrinhos, primos, filhos dos amigos… aqueles seres pequeninos por quem, por um motivo ou outro, nutrimos carinho. Ficam os outros. Não é minha intenção fazer, neste blog, uma homenagem (muito sentida, mas também já muito vista) ao famoso (e infelizmente muito frequente) “menino de rua”. Não que não ache que esses meninos e meninas não o mereçam. Antes pelo contrário. Queria pôr-te a pensar… Fazer um pequeno exercício de “troca de papéis” …Ponto 1.
Volta atrás. Lembra-te de como eras quando tinhas… nove anos.
Lembra-te da tua cidade, da tua casa, dos seus cheiros e sabores. Lembra-te dos teus pais, tios e avós. Lembra-te das brincadeiras com os primos e os vizinhos. Lembra-te de tomar banho de chuva, de fazer tudo aquilo que os kotas não queriam que fizesses. Ser criança é mesmo assim! Lembra-te da tua escola, da professora, das “tarefas”. Lembra-te dos fins-de-semana, da praia.
Agora lembra-te dos medos que tinhas na altura. Da régua se não soubesses a tabuada, que te apanhassem a beber água da torneira, do escuro e do papão… Podes até nem te lembrar disso mas quase de certeza que tinhas medo de perder os teus pais. Todas as crianças têm!
Agora imagina que todos os teus piores receios se tornavam realidade. Perdias os teus pais ou até toda a tua família, aliás, assistias às suas mortes. Vias a tua casa ser destruída por obuses e todos os teus brinquedos cheios de sangue de pessoas que amas. A tua escola também tinha sido destruída e a tua professora desapareceu, juntamente com a maior parte dos teus amiguinhos. A água da torneira que antes não te deixavam beber era agora quase uma raridade e nem sequer havia luz porque os postes tinham sido destruídos também… E tu… que sempre tiveste medo do escuro… nem sequer tinhas a tua mãe para te dar colo. Claro que tinhas fome, mas não havia comida. Aliás, não havia nada. Havia a roupa que tinhas no corpo e a destruição que tinhas na mente.
Se fores rapaz, lê a alínea a), se fores rapariga lê a b)
a) Como já sabes andar e ainda te restam duas mãos, entregam-te uma arma. Não era bem o que tu querias mas é a única forma de conseguires algo para matar a fome e alguma protecção. Não tinhas outra escolha. A tua recruta é feita in vivo e a cores. Ou melhor, a cor. O vermelho do sangue! Logo tu que nunca foste de brincar às guerras. Mas é mesmo assim, há que matar para não ser morto. É dura a vida. Por muitas vezes quase que morres e chegas mesmo a desejar que isso aconteça, no entanto sobrevives. Sabes e sentes que já não és o mesmo menino, que agora te acompanham o espectro de todos os corpos aos quais retiraste vida. Baixinho, rezas para que os Deuses te perdoem e entendam que só fizeste o que tinhas de fazer. Um dia consegues fugir e chegar a um campo de refugiados. Tu, os “vícios” que adquiriste para conseguir sobreviver neste “mundo cão”, o teu sofrimento e os teus traumas. (Passa para o ponto 2)
b) O mais provável é seres violada vezes sem conta por vários homens. Se não morreres num desses episódios, vais-te arrastando. Tu e as outras crianças, mulheres e velhos que se arrastam, a si e às suas poucas bikuatas, naquilo que se pode considerar a versão moderna do exodus. Como só tens nove anos não corres o risco de engravidar mas podes sempre contrair SIDA. Como não tens acesso a medicamentos (nem a comida sequer…), adoeces facilmente. Mas vamos lá ser bonzinhos e considerar que não contraíste SIDA nem morres de nenhuma outra doença, de fome ou de exaustão. Consegues assim chegar a um campo de refugiados. Tu, os “vícios” que adquiriste para conseguir sobreviver neste “mundo cão”, o teu sofrimento e os teus traumas. (Passa para o ponto 2)
Ponto 2.
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No campo de refugiados
No campo de refugiados até que se vive melhor mas inevitavelmente as dificuldades continuam, não há comida para todos, não há medicamentos para todos, não há espaço, não há condições básicas. Não há nada que chegue para todos. Diz-se que há aviões e camiões a trazer comida mas tu não vês nada. A única coisa que vês é a fome. És muito jovem mas já aprendeste que a fome tem cara. Tem a tua cara e a cara dos que te rodeiam!!! Entretanto fizeste amigos, criança é mesmo assim, sociável por natureza. Os teus amigos são a única família que tens. São outras crianças órfãs como tu! Decidem ir para a cidade onde têm família. Onde cabe um cabem dois. Sempre foi esse o espírito da nossa gente por isso partes com eles.
Ponto 3.
No campo de refugiados até que se vive melhor mas inevitavelmente as dificuldades continuam, não há comida para todos, não há medicamentos para todos, não há espaço, não há condições básicas. Não há nada que chegue para todos. Diz-se que há aviões e camiões a trazer comida mas tu não vês nada. A única coisa que vês é a fome. És muito jovem mas já aprendeste que a fome tem cara. Tem a tua cara e a cara dos que te rodeiam!!! Entretanto fizeste amigos, criança é mesmo assim, sociável por natureza. Os teus amigos são a única família que tens. São outras crianças órfãs como tu! Decidem ir para a cidade onde têm família. Onde cabe um cabem dois. Sempre foi esse o espírito da nossa gente por isso partes com eles.
Ponto 3.
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Na cidade
Finalmente chegaste! Todas as esperanças ganhas ao longo da caminhada da tua (pequena) vida, rapidamente se desvanecem. A tua terra está longe no espaço e longe na memória. Sentes que foi tudo há tanto tempo, muito aconteceu, já não sabes distinguir o que é verdade e o que é imaginação. Certamente que esta cidade grande não tem nada a ver com a tua pequena terra mas também, quem viu guerra vê tudo. Sentes-te um pequenino/a guerreiro/a. Alguns conseguiram encontrar família mas tu continuas sozinho. Sozinho não, com os outros meninos “refugiados de guerra”. Dentro da vossa vaga noção de organização social lá se vão desembaraçando e criam grupos relativamente bem organizados. Não há comida pois não? Não… E o que é que tu, que lês, fazias se tivesses fome, muita fome, nove anos, nenhuma educação, poucos valores, muita revolta, tristeza e alguma maldade? Roubavas, não é? Tu talvez sim…
Mas não, o meu “menino de rua”, o meu “refugiado” não rouba. Ainda é uma criança e apesar de lhe terem arrancado a inocência característica, tudo o que viu e ainda o fez ter ódio, tem noção, ainda que parca do bem e do mal. Então decide ir pedir esmola. No fundo sente que a sociedade tem obrigação de o “compensar” e de ser, em parte, responsável por ele/a.
A sociedade, no entanto, não acha nada disso. Nós, ainda que inconscientemente, achamos que “esse bando de marginais não são maka nossa, que o governo é que devia olhar por eles ou então mandá-los para os kimbos deles…”
“- Onde é que já se viu uma pessoa nem poder andar na rua sem ter esses aí a chatear… ah porque o meu kota dá só pão, ah porque minha tia dá só dinheiro”.
Agora fecha os olhos. Pensa na criança que mais gostas. Pode ser o teu filho, o teu irmão ou uma outra criança qualquer. Imagina-a sem pai, sem mãe. Imagina-a sem família, sem casa, sem terra, sem rumo… Imagina esse pequenino que sempre foi guiado, a ver-se de um momento para o outro, sem guia e cercado de ódio, de medo, de terror. Imagina o teu pequenino sem comida e sem água, só com fome. É duro imaginar né!!? E as nossas crianças que são educadas com valores, com o mínimo indispensável, sem tantas privações…muitas tornam-se adultos maus, sem escrúpulos, agressivos… O que é de esperar destes meninos e meninas, que vão ser dentro de poucos anos os adultos angolanos? O que é de esperar deste país?
Não quero ser propagandista, dizer coisas muito bonitas sem resultados práticos… O que eu queria mesmo era que as crianças tivessem tanta importância em Angola como tem o petróleo, os diamantes, as fortunas que se acumulam… Não porque são pequeninos e “tudo o que é pequenino é bonito”, nem porque cai bem dizer isto… Apenas porque o futuro de Angola não é só o petróleo e os diamantes, o futuro de Angola também são as crianças. Assim, na próxima vez que uma criança te pedir alguma coisa, não digas logo “não tenho nada”, pensa nisto e lembra-te que tens sempre algo, nem que seja um bocadinho de ti!
Entendo que perpetuar a “esmola” pode também perpetuar o recurso à mesma, tornando-se num ciclo vicioso. Mas, já que não há muitas alternativas a isto acho que por enquanto é nosso dever, até encontrar alternativas…
Se tiveres alternativas, aceito sugestões para mudar qualquer coisinha… Talvez sozinha não consiga fazer muito mas se nos juntarmos, talvez possamos juntos encontrar uma solução!
“O importante não é mudar o mundo, é mudar um bocadinho dele.”
Sara Carmo
Shara
Finalmente chegaste! Todas as esperanças ganhas ao longo da caminhada da tua (pequena) vida, rapidamente se desvanecem. A tua terra está longe no espaço e longe na memória. Sentes que foi tudo há tanto tempo, muito aconteceu, já não sabes distinguir o que é verdade e o que é imaginação. Certamente que esta cidade grande não tem nada a ver com a tua pequena terra mas também, quem viu guerra vê tudo. Sentes-te um pequenino/a guerreiro/a. Alguns conseguiram encontrar família mas tu continuas sozinho. Sozinho não, com os outros meninos “refugiados de guerra”. Dentro da vossa vaga noção de organização social lá se vão desembaraçando e criam grupos relativamente bem organizados. Não há comida pois não? Não… E o que é que tu, que lês, fazias se tivesses fome, muita fome, nove anos, nenhuma educação, poucos valores, muita revolta, tristeza e alguma maldade? Roubavas, não é? Tu talvez sim…
Mas não, o meu “menino de rua”, o meu “refugiado” não rouba. Ainda é uma criança e apesar de lhe terem arrancado a inocência característica, tudo o que viu e ainda o fez ter ódio, tem noção, ainda que parca do bem e do mal. Então decide ir pedir esmola. No fundo sente que a sociedade tem obrigação de o “compensar” e de ser, em parte, responsável por ele/a.
A sociedade, no entanto, não acha nada disso. Nós, ainda que inconscientemente, achamos que “esse bando de marginais não são maka nossa, que o governo é que devia olhar por eles ou então mandá-los para os kimbos deles…”
“- Onde é que já se viu uma pessoa nem poder andar na rua sem ter esses aí a chatear… ah porque o meu kota dá só pão, ah porque minha tia dá só dinheiro”.
Agora fecha os olhos. Pensa na criança que mais gostas. Pode ser o teu filho, o teu irmão ou uma outra criança qualquer. Imagina-a sem pai, sem mãe. Imagina-a sem família, sem casa, sem terra, sem rumo… Imagina esse pequenino que sempre foi guiado, a ver-se de um momento para o outro, sem guia e cercado de ódio, de medo, de terror. Imagina o teu pequenino sem comida e sem água, só com fome. É duro imaginar né!!? E as nossas crianças que são educadas com valores, com o mínimo indispensável, sem tantas privações…muitas tornam-se adultos maus, sem escrúpulos, agressivos… O que é de esperar destes meninos e meninas, que vão ser dentro de poucos anos os adultos angolanos? O que é de esperar deste país?
Não quero ser propagandista, dizer coisas muito bonitas sem resultados práticos… O que eu queria mesmo era que as crianças tivessem tanta importância em Angola como tem o petróleo, os diamantes, as fortunas que se acumulam… Não porque são pequeninos e “tudo o que é pequenino é bonito”, nem porque cai bem dizer isto… Apenas porque o futuro de Angola não é só o petróleo e os diamantes, o futuro de Angola também são as crianças. Assim, na próxima vez que uma criança te pedir alguma coisa, não digas logo “não tenho nada”, pensa nisto e lembra-te que tens sempre algo, nem que seja um bocadinho de ti!
Entendo que perpetuar a “esmola” pode também perpetuar o recurso à mesma, tornando-se num ciclo vicioso. Mas, já que não há muitas alternativas a isto acho que por enquanto é nosso dever, até encontrar alternativas…
Se tiveres alternativas, aceito sugestões para mudar qualquer coisinha… Talvez sozinha não consiga fazer muito mas se nos juntarmos, talvez possamos juntos encontrar uma solução!
“O importante não é mudar o mundo, é mudar um bocadinho dele.”
Sara Carmo
Shara
domingo, fevereiro 19
"Os angolanos, como todos os homens, são seres polígamos e pulam a cerca"
Entrevista com a ilustre jornalista, Amélia Aguiar que não sendo sexóloga teceu uma opinião bastante interessante e isenta sobre a realidade actual da sexualidade angolana.Clicar aqui para aceder a entrevista.
Fonte:
Angonotícias
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