quarta-feira, agosto 10

Xé Minino!!! Não Fala Política...

"Desde a criação deste Blog que anseio por textos. Este superou as minhas expectativas, tem nas suas entrelinhas algo de poético e uma mensagem muito clara que me fez efervescer. É digno de estar publicado num livro de contos populares. Espero que apreciem ..."

Xé menino! Não fala política... E depois disse que qnd ela morresse queria ver Angola e o Mundo em Paz... Foi então que eu pensei no que poderia fazer para trazer à realidade um pouco do sonho da avó Xika. Mas depois perguntei-me: "o que seria para a avó Xika a Paz?" O que é que ela quer exactamente com essa paz...? O que é que isso significa...? E mais, porquê que ela me disse para não falar de política?
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Era sábado à tarde e o sol ardente queimava o dorso da cidade, tal era a raiva com que brilhava. Ninguém estava a salvo e nem a própria sombra refrescava; no ar misturavam-se as poeiras vindas do musseke, os fumos negros dos carros, os odores corporais mal disfarçados com fragrâncias artificias, o grito agudo dos metais que dilatavam e os ruídos das pessoas que nas ruas vagueavam... Tudo isto nos ouvidos, nos olhos e nos pulmões era ressentido: ao suor dos corpos agarrava-se a poeira; os olhos lacrimejantes cerravam-se para afastar as ditas e a luz, enquanto os pulmões procuravam um pouco de pureza no ar que as pessoas respiravam.

De repente já ninguém falava e todos se tinham "quedado" diante uma notícia que acabava de dar na Rádio, era sobre uma coisa de corrupção... Perguntei docemente à avó Xika, que sentava ao meu lado, envolta em panos, com a mão na cabeça: "Avó! O que é corrupção?" – Senti que a minha pergunta a tinha feito pensar, tinha até assustado um pouco a velha, pois senti naqueles eternos segundos de silêncio uma certa ansiedade, um certo receio e ate mesmo o bater do seu coração...
Fitou-me com um olhar assustado e repreendedor de olhos esbugalhados e disse-me quase em surdina: "Xé menino! Não fala política..." Senti-me então repentinamente numa espécie de pânico, mas controlado, sem saber bem o que se estava a passar, e também o meu coração começou a bater mais forte.
Era hábito da velha Xika ficar longas horas sentada na pedra com as mãos na cabeça, envolta nos seus panos, embrulhada nos seus pensamentos. Ela ficava ali horas, muda, surda, cega e triste... Mas eu nunca lhe tinha perguntado porquê que ela ficava assim... Até que naquele dia depois da notícia que deu na Rádio, perguntando-lhe o que era aquilo da corrupção, abalei toda a sua triste serenidade e depois de me dizer para não falar de política perguntei-lhe, com a coragem já a dar de si, porquê que ela ficava assim triste a pensar, a chorar lágrimas que ninguém via, a pensar coisas complicadas e tristes que eu não entendia.
Deixando rolar uma lágrima visível sobre as marcas que o tempo deixara no seu rosto, com os lábios trémulos e a voz abafada, disse: "Quando eu morrer quero ver Angola e o Mundo em Paz!"

Passaram-se os anos e a velha Xika morreu, a guerra tinha acabado, mesmo antes dela morrer. Até parece que ela sabia que isso ia acontecer e só estava a espera disso para morrer em paz, para morrer feliz... É verdade que a guerra tinha acabado e as pessoas estavam todas contentes, mas havia ainda muitos deslocados, muitos refugiados, muitos mortos, muitos feridos, muitas famílias separadas, muitas feridas abertas, havia mesmo muita rebaldaria. Parecia que as pessoas só estavam a espera do fim da guerra para se tornarem todas más. A guerra tinha acabado, mas eu não sabia porquê que as pessoas estavam mais feias, mais rudes, mais violentas e menos solidárias do que antes; uns passavam mais fome, outros liam menos livros, uns estavam mais doentes, mais fracos, tinham menos empregos, mendigavam mais, tinham menos luz e menos água. Outros viviam bem! Diziam que era dos negócios, que eram pessoas de esquemas... Os tais que puxam daqui, arrastam para ali! Eram os tais corruptos, era desses que aquela notícia da Rádio falava...
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O que é a Paz? Era isso que a velha Xika queria afinal? Mas porque queria alguém uma coisa dessas? Será que ela, se não tivesse morrido, também seria um desses corruptos? Não! A velha Xika não era assim! Não era isto que ela queria! O que ela queria era que as pessoas se dessem todas bem e vivessem todas bem.
Será que podia eu fazer alguma coisa para mudar isso? A quem poderia recorrer para me ajudar a trazer à esta realidade um pouco daquele sonho tonto de velha, da velha Xika? Os mais velhos diziam todos, "não fala política" sempre que lhes pedisse ajuda ou perguntasse algo sobre o assunto. Mas porquê que ninguém quer que se fale de política? Têm medo de quê, se quando o colono se foi, tinha tudo a ver com política? Se também eles são políticos...
Deixei então novamente o tempo fluir, como ele faz sempre, mas desta vez sem me preocupar em fazer nada porque era impossível. Ninguém me ajudava... Hoje voltei a perguntar-me a mesma coisa: O que posso fazer para mudar esta Paz? O que posso fazer para trazer paz à esta Paz? Dar abrigo aos que não têm? Dar comida aos famintos e sub nutridos? Dar livros aos analfabetos? Dar brinquedos as crianças traumatizadas pela guerra? Dar uma enxada ao camponês cuja horta foi minada? Dar dinheiro a quem não trabalha? E já agora levar água salgada para o mar? Levar areia para o deserto? Por lenha na fogueira? Não serão estas opções matematicamente equivalentes? Sentimo-nos bem porque colaboramos num grande projecto! Porque afinal somos solidários e humanos, porque temos sentimentos e porque somos bem educados. Sentimo-nos bem porque somos politicamente correctos... É engraçado não é? Quase que poético...
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Eu também, em tempos, estive adormecido pela ilusão deste “politicamente correcto”, eu também em tempos fui... Poético! Vi que isso nem sempre bastava, vi que nem sempre a minha "poesia chegava aos ouvidos dos mais ávidos"... Agora acho que devemos ser politicamente incorrectos e chamar "os bois pelos nomes". Gatuno é gatuno! Corrupto é corrupto! Bandido é bandido! "O certo é o certo e o errado é o errado"
Deixei de enviar "poemas", deixei de iludir os necessitados com as minhas "boas intenções". E porquê? Porque eles não precisam de se alimentar da mesma ilusão que eu! Não precisam de estar dependentes de mim!
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O que posso então fazer? Posso enviar-te esta mensagem. Posso envia-la porque ela despiu-se de ilusões, despiu-se de poemas. Pede-te apenas que sejas a voz dos mudos e fales por eles para que eles sejam ouvidos... Que sejas os olhos dos cegos e que vejas por eles para que os possas ajudar, guiando-os... Que sejas os ouvidos dos surdos, para que ouças por eles e em antecipação possas preveni-los... Que sejas as cartas e reclamações que eles não sabem escrever... Que sejas o exemplo que não tiveram e o conselho que ninguém deu... Porque esta era a Paz que a velha Xika queria antes de morrer e esta será a paz que ensinarei aos meus filhos, porque agora, esta é também a paz que quero.
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Por:
RUKA PASSOS
Portugal
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Sê a mudança que queres ver no mundo!!!

1 comentário:

MN disse...

Ao meu amigo Ruka Passos um forte abraço de parabéns pelo texto original.
Espero que mais textos possam surgir e que continues nesse ritmo.

Congratulo-me por saber que cada vez mais, mais gente abraça a causa que move este Blog.

Tenho Fé na nossa Geração! Vamos mudar Angola e mostrar ao Mundo quem somos.

Os primeiros passos para emergir do caos estão a ser dados.

Poderás contar connosco Angola!