domingo, dezembro 21

Votos de Feliz Natal e Prospero Ano Novo, de Angolano para Angolano


Que a nossa amizade seja eterna como eternas são as obras em Angola,
Que a tua alegria aumente como aumenta a corrupção em Angola,
Que o teu amor seja visível como a poeira em Angola,
Que os teus sonhos nunca faltem como a água e a luz em Angola,
Que os teus desejos possam atingir todos os extremos, como os ricos e os pobres em Angola,
Que a tua felicidade aumente como aumentam todos os dias os gatunos de Luanda e que o teu futuro seja bonito e risonho como é o povo desta Angola amada.
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''DESEJO-TE TUDO DE BOM, PARA ALÉM DAQUILO, QUE SÓ ESTA ANGOLA PODE DAR''
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Por: Anónimo

sexta-feira, dezembro 12

"Bocas"

Ter Angola no Coração é ter o coração cheio de amor. Amor por todos os Angolanos – mas mesmo todos. Amor por toda Angola, em toda a sua beleza.
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Temos que assegurar plena liberdade, mas esperando responsabilidade de todos. Temos que estimular e tolerar a diversidade, mas esperando a colaboração de todos na concretização dos grandes desígnios nacionais.
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O desenvolvimento de Angola deve envolver quatro aspectos fundamentais: infra-estruturas, instituições, consciência e cultura. Um país só se desenvolve integralmente se evoluir, simultaneamente, nas infra-estruturas que suportam a vida das pessoas, nas instituições que gerem a sociedade, na consciência individual dos seus cidadãos e na cultura nacional do seu povo.
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A população Angolana está hoje distribuída pelos lugares “errados”. E o principal “erro” chama-se Luanda, cidade que concentra cerca de 30% da população do país. A solução é levar o grosso do investimento público para fora de Luanda. A população segue o dinheiro.
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Se Luanda tiver efectivamente cinco milhões de habitantes, será o 50.º maior aglomerado populacional do mundo. Estará a frente de cidades como Washington, Roma ou Berlim. Dos 100 maiores aglomerados urbanos do mundo, 84 albergam menos de 15% da população dos países e só quatro é que albergam mais de 30%.
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Luanda tem população a mais, tendo em conta a população de Angola. A solução de fundo não é investir e construir à altura de cinco milhões de pessoas. É reduzir drasticamente a população, atraindo-a para outras zonas do país. A solução estrutural para Luanda está fora de Luanda.
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O país deve envolver-se num grande esforço de ordenamento do território. Isto para que os investimentos em infra-estruturas não agravem o actual desordenamento. O desenvolvimento deve ser policêntrico.
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Reduzir a população de Luanda dos actuais cinco milhões para os três milhões; fazer crescer a população de cidades como Malange e Huambo para os 1,5 milhões; fazer crescer a população de cidades como o Soyo e Luena para os 750 mil habitantes.
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As sedes de todas as empresas petrolíferas, a começar pela Sonangol, seriam transferidas para o Soyo. As sedes de todas as empresas diamantíferas, a começar pela Endiama, seriam transferidas para Malange.
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Poderá ajudar uma nova cidade que hospede o poder central, promovendo maior eficiência no funcionamento dos órgãos de soberania e da administração central do Estado. Mas deve situar-se longe de Luanda e deve ser uma cidade da ordem dos 375 mil habitantes. Não acredito que sejamos capazes de construir de raiz uma cidade de um milhão de habitantes.
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Quando a via rápida entre Viana e Luanda estiver pronta, todos vão chegar mais rápido. Quem vem trabalhar e quem vem roubar. A estrada é uma coisa. Não tem consciência. Quem tem consciência são as pessoas. A par do desenvolvimento das coisas temos de cuidar do desenvolvimento das consciências.
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Quer a Noruega, quer a Nigéria, têm muito petróleo. O Desafio para Angola nos próximos 20 anos é usar o petróleo para aproximar-se da Noruega e afastar-se da Nigéria no Índice de Desenvolvimento Humano.
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O que Angola mais precisa é de uma injecção muito forte de uma “vitamina” chamada CCR: Carácter, Competência e Responsabilização. É preciso um número infinito de biliões de dólares para preencher um vazio de CCR.
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Sem instituições desenvolvidas, mesmo com dinheiro, os resultados ao nível das infra-estruturas não aparecem, são lentos ou custam muito mais do que deveriam custar.
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Quem precisa de uma mota não se safa colocando um motor numa bicicleta. Investimento em infra-estruturas sem instituições desenvolvidas é colocar um motor numa bicicleta.
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Frequentemente, fala-se da “nossa cultura” como se fosse somente um acervo de tesouros. Não é assim. Há tesouros, mas também há venenos. Devemos concebê-la como uma dimensão da nossa existência colectiva que é viva. Que evoluiu, não visivelmente todos os dias, mas há espaços de anos ou de décadas.
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Um líder tem de ser uma mulher ou um homem genuinamente interessado na felicidade dos outros, que os engaja através da nobreza do propósito, da integridade dos seus valores, do seu carácter e do calor que coloca nos seus relacionamentos. Como disse Madre Teresa de Calcutá: “Não se fazem coisas grandes. Só coisas pequenas com um grande amor".
A evolução espiritual também é uma das linhas do desenvolvimento de Angola.

Copyright Amândio Vaz Velho 2008.
All rights reserved.

domingo, novembro 30

E se Obama fosse africano?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

In: Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008

terça-feira, novembro 4

"Angola é governada por criminosos"

"Angola é governada por criminosos" - ainda hoje esta frase ecoa na minha mente.
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Só eu sei o que senti quando ouvi as declarações de Bob Geldof. E senti-o de tal maneira que havendo certamente palavras elegantes para descrever esses sentimentos, não sou capaz de as reconhecer sequer. Assim, prefiro nem tentar expressar com rigor das minhas emoções. Deixar-me-ei por isso levar pela imaginária e agradável sensação de estar serenamente sentado a beber batido de abacate, com bastante leite condensado.
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Se é verdade que Angola é governada por criminosos, então não deixa de ser verdade que estas eleições foram fraudulentas e que os observadores internacionais são cúmplices na acção criminosa do Estado angolano contra o seu próprio povo e sua única fonte de legitimidade.
Se é verdade que Angola é governada por criminosos, então não deixa de ser verdade que a Comunidade Internacional dá amparo a estes crimes porque, tendo poderes para o efeito, não faz o exame necessário a respeito desses crimes e simplesmente ignora as suas vítimas.
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Se é verdade que Angola é governada por criminosos, então o povo angolano é criminoso porque o Governo de Angola é um GOVERNO DE UNIDADE E RECONCILIAÇÃO NACIONAL.
E se querer um Governo destes é crime, então o povo angolano é criminoso porque escolheu e aceitou para si um Governo criminoso constituído por diferentes forças partidárias.
Por favor Sir Bob Geldof, explique ao povo de Angola que as eleições agora realizadas não foram livres, embora tenham concorrido 13 formações políticas diferentes que realizaram as suas campanhas em pé de igualdade, suportadas com meios financeiros públicos e com total liberdade de reunião e manifestação; que não foram justas, apesar de haver já partidos políticos angolanos que vieram a público declarar que aceitam os resultados destas eleições; e que não foram transparentes, não obstante a constante e contínua informação / formação dada aos angolanos sobre o processo eleitoral.
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Não, o processo eleitoral angolano não foi perfeito, o sistema eleitoral angolano não é perfeito. Mas se também não o é qualquer outro processo eleitoral realizado com a periodicidade prescrita pelas leis dos países onde decorrem, porque havemos de esperar que o processo eleitoral angolano seja imaculado?
Se também não são perfeitos outros sistemas eleitorais, porque havemos de exigir que o sistema angolano seja isento de vícios? Quiçá os mesmo vícios de outros países que tenham adoptado um sistema eleitoral semelhante…Houve dificuldades e falhas. Foram assumidas. Ninguém se escondeu ou procurou justificar o injustificável. Pediu-se desculpa e ofereceu-se a solução, prevista na lei. Deve haver responsabilização por estas falhas? Devem ser tiradas consequências políticas? Se sim, então que assim seja! Os homens deste país já mostraram que sabem assumir as suas responsabilidades e não têm medo do mundo. O FMI que o diga...
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O facto é que Bob Geldof fundou a sua opinião na comummente aceite ideia: Angola é governada por criminosos.É mais fácil aderir à opinião generalizada e escutar apenas pessoas que estão de passagem, de pessoas que têm uma opinião tendenciosa ou de pessoas que simplesmente ignoram a realidade angolana, do que estudar as questões a fundo, no terreno e de forma imparcial; do que procurar compreender o que foi, o que é e o que se quer que Angola seja; do que contribuir com projectos, com ideias, ou simplesmente com conselhos ou sugestões modestas.
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Desculpem mas tenho de repetir: se Angola é Governada por criminosos, o Governo de Unidade e Reconciliação Nacional, composto por diferentes partidos políticos angolanos, tem a cobertura de toda a comunidade internacional, na sua acção criminosa, e isso inclui a do Sir Bob Geldof pela forma leviana, irresponsável e pior, inconsequente como vem a publico fazer denúncias graves sem que tenha sido apresentado qualquer tipo de suporte a respeito.
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Falar de Angola é fácil porque estamos catalogados como um país do terceiro mundo. Mas pergunto-me: qual a verdadeira diferença entre os países do terceiro mundo e os outros quando em ambos existe fome? (EUA); quando em ambos pessoas morrem por falta de assistência médica (Portugal); quando em ambos não existe liberdade religiosa (França); quando em ambos não existe igualdade salarial entre homens e mulheres (Itália) ou quando entre ambos, por crenças religiosas se matam pessoas? (Irlanda); ou quando em ambos os candidatos as eleições legislativas são assassinados? (Holanda)Falar de Angola é fácil simplesmente porque basta descontextualizar a realidade e subvertê-la aos critérios culturais de quem fala.
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Aprendi na faculdade que devemos sempre procurar saber quem faz a História, ou melhor, quem a conta. O mesmo facto, testemunhado por duas pessoas diferentes, é contado de forma diferente porque cada uma delas tem a sua própria hierarquia de valores e interpreta a realidade e tomando decisões em conformidade com essa hierarquia e outros factores que influenciam o conhecimento.
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E o problema não é, o facto do "Governo angolano não saber conviver de forma saudável com a liberdade de imprensa" como diz o comunicado da SIC. O problema que existe na verdade é o do exercício abusivo ou irresponsável da liberdade de imprensa.Responsabilizar civil ou até criminalmente as pessoas pelo exercício abusivo ou irresponsável das suas liberdades pode não bastar para repor a ordem pública. Se necessário for, o Estado pode e deve limitar ou mesmo suspender o exercício de liberdades fundamentais. Não estou a sugerir que sejam agora intentadas acções judiciais contra Bob Geldof ou a SIC. Estou apenas a dizer que defendo o meu país.
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Não estou com isto dizer que o Estado angolano pode suspender liberdades fundamentais de cidadãos estrangeiros que nem sequer se encontram no Pais. Estou apenas a dizer que não sei se foi o Estado angolano que inviabilizou deliberada e injustificadamente a emissão dos vistos de alguns repórteres portugueses ou se havia fundamento legal para o efeito ou ainda outro qualquer, minimamente atendível, que inviabilizasse a emissão dos vistos. Sei no entanto, e por isso não deixo de considerar intrigante, que a SIC omite, deliberadamente ou por mero esquecimento, o motivo porque os vistos não foram emitidos.
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O exercício da liberdade de imprensa, deve ser um exercício de responsabilidade, deve ser um exercício de informar e ser informado com objectividade, com imparcialidade e com rigor. Sem estes requisitos, mínimos, a informação deixa de ser notícia e passa a ser um artigo de opinião, sem a dignidade que se quer para um serviço noticioso. Sim. Angola é um Estado de Direito e não o é menos do que outros Estados onde por vezes, às vezes constantes, as leis também são atropeladas.
Não. Angola não deixou de existir com o fim da guerra e nem foi (re)descoberta com o início do seu crescimento económico.
Ruka Passos

quinta-feira, setembro 18

"Rir é o Melhor Remédio"

Era uma vez Quatro funcionários públicos angolanos chamados: Toda-a-Gente, Alguém, Qualquer-Um e Ninguém.

Havia trabalho importante para fazer e Toda-a-Gente tinha a certeza que Alguém o faria.
Qualquer-Um podia faze-lo mas Ninguém o fez.
Alguém se zangou porque era um trabalho para Toda-a-Gente.
Toda-a-Gente pensou que Qualquer-Um podia tê-lo feito, Ninguém constatou que Toda-a-Gente não o faria.
No fim, Toda-a-Gente culpou Alguém, quando Ninguém fez o que Qualquer-Um poderia ter feito.
Foi assim que apareceu o Deixa-Andar, um quinto funcionário para evitar todos esses problemas.

terça-feira, setembro 9

Angola em tempo de eleições e de debate

João Melo: Angola, factor étnico e o resto da África

Reacções academicamente válidas e talhadas a este artigo poderão ser encaminhadas ao autor e viabilizar a dialéctica em torno do assunto.

FACTOR ÉTNICO é a grande diferença entre Angola e a maioria dos países africanos

A grande diferença entre Angola e a maioria dos outros países do continente tem a ver com o peso do factor étnico: no nosso país, esse peso é muito menor do que aquele que predomina nos demais países.
João Melo *

Dois académicos angolanos, Mário Pinto de Andrade e David Boio, realizaram um inquérito junto dos estudantes universitários locais designado "Estudo sobre Identidade Nacional e Cultural - Pensamento dos Estudantes Universitários" , cujas conclusões, recentemente divulgadas, são extremamente significativas.

As mesmas demonstram aquilo que muitos angolanos, dos cidadãos comuns aos intelectuais, passando por vários dirigentes políticos, costumam afirmar, mas que alguns insistem em ignorar: Angola é um país diferenciado em África.

A grande diferença entre Angola e a maioria dos outros países do continente tem a ver com o peso do factor étnico: no nosso país, esse peso é muito menor do que aquele que predomina nos demais países.

Esse facto objectivo é confirmado pela "hierarquia identitária" observada nas respostas dos inquiridos: os jovens universitários angolanos identificam-se como angolanos, africanos e cidadãos do mundo, por essa ordem. Só depois disso aparece a identidade com base na etnia. Um dado "estranho", à primeira vista, mas que, por isso mesmo, é altamente sintomático, é que, entre os estudantes originários do interior do país, ser "cidadão do mundo" surge antes de ser "africano".

Em termos de línguas, o português é de longe reconhecido como o idioma que melhor representa o país, tanto em Luanda como nas restantes províncias. O kimbundu e o umbundu aparecem depois, consoante a origem geográfica dos inquiridos. O hino e bandeira (que muitos insistem em considerar demasiado "colados" ao MPLA, o partido no poder) são os símbolos com que os inquiridos mais se identificam, a nível nacional.

A religião predominante, segundo o estudo, é o catolicismo. As crenças tradicionalistas (por exemplo, a kanda e a umbanda) praticamente não foram declaradas.

Enfim, os cinco escritores que, de acordo com os estudantes universitários locais, melhor expressam a identidade angolana são os seguintes: Agostinho Neto, Pepetela, Uanhenga Xitu, Luandino Vieira e Alda Lara. Para quem gosta de analisar África sob o estafado prisma da cor da pele, dois desses escritores são pretos, dois brancos e um, mestiço.

Estes alguns dos resultados mais importantes do "Estudo sobre Identidade Nacional e Cultural - Pensamento dos Estudantes Universitários" , acabado de divulgar em Angola. Os mesmos lançam por terra as teses de certos cientistas sociais vinculados à corrente tradicionalista local, como, só para dar um exemplo, a afirmação de que a antropologia e as línguas de origem africana é que definem a angolanidade.

Num país pluri-racial e pluri-linguístico como Angola, essa tese é, para dizer o mínimo, cientificamente equivocada. Do ponto de vista político, pode mesmo tornar-se perigosa.
A verdade é que as imagens e percepções dos estudantes universitários angolanos - as futuras elites do país - atestam uma tese que já defendi em público: Angola é um país de origem afro-euopeia, cuja matriz bantu é fundamental, mas não exclusiva (logo, não pode ser excludente).

O traço realmente estruturante de Angola resulta - sejam quais forem as avaliações políticas e/ou morais que é bom, sem trocadilhos, não branquear - do contacto histórico ocorrido, no espaço territorial que hoje constitui o país, entre os seus habitantes originários e os povos europeus chegados do exterior, como o evidenciam de forma clara e inequívoca as respostas dos inquiridos acerca, por exemplo, da religião, da língua ou da literatura.

Ora, e sem esquecer, como é óbvio, a necessidade de estudar e valorizar correctamente o passado (não apenas os seus ícones, como também os valores e as práticas que se mostrarem adequadas à construção actual da realidade), o futuro de Angola será determinado por aquilo que a sua juventude quiser.
Envio-vos
João Melo, jornalista e escritor angolano, é director da revista África 21

Fonte: http://br.groups.yahoo.com/group/forum_de_angolanistas/

sábado, agosto 23

Relações Inter-Étnicas e o Racismo a Moda Angolana

Sou mulato, ou mestiço, ou ainda, como poderão ler no texto que em baixo republico, “gato de sete vidas “… (não sabia dessa ha ha ha).
Acho o texto muito bem conseguido e carrega uma mensagem importante. Tem também uma pitadinha de injúria na referência que faz aos "mestiços" mas pela seriedade do assunto convido-vos a ler até ao fim e depois reflectir, de preferência em forma de comentário.


Europeu

É engraçado o europeu ou o branco em Angola assim como em todos os lugares que foi e que por uso de força conquistou na era moderna, acaba ele mesmo se transformando no autóctone e transformando o autóctone em o estrangeiro, ou melhor, deslegitimando os direitos naturais de quem encontrou na parcela geográfica e legitimando seus actos sobre os membros da sociedade em que se tem o novo contacto. Passando a legitimar como promoção da civilização europeia todo seu ato contra o Outro, neste caso o autóctone, não devemos esquecer que o branco é o forasteiro, o estrangeiro, o que veio saquear e sequestrar. Assim permaneceu de forma clara e aberta até as independências em África e no resto do mundo colonizado, ainda assim permanece de forma obscura em nossos dias.
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Africano

O preto africano, como dominado, permaneceu e permanece dominado, não mais de forma física, e sim mental ou psique, sendo assim, carrega em si elementos, símbolos, significâncias que o levam sempre a exaltar de alguma forma o europeu ou o branco e os indivíduos que mais se aproximam fenotipicamente ao branco, neste caso os mulatos e outros tipos de mestiços, fruto do cruzamento étnico branco e demais grupos que, com isso a naturalização da auto negação e flagelo, tornam-se algo natural: como alisar um cabelo, refinar o nariz, preferir os nomes e línguas europeias, vestimentas, termos preferência em se relacionar com brancas e na falta delas mulatas etc e etc...
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Afro-Europeu

O mulato dentre todos, é o mais desolado, penso, pois é rejeitado de uma ou de outra forma pelo europeu e pelo africano por ser uma figura ambivalente, fruto de processos políticos sociais e não meramente, como se faz parecer, de traços “biológicos”. E afro-europeu é figura com papel central do racismo moderno em África e sua Diáspora. Textos como de Willie Lynch e outros cientistas naturalistas, físicos, químicos, teólogos, padres, pastores e etc,..
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A Cara do Racismo em Angola

Parece difícil e uma insanidade falar de racismo em África, em especial Angola, algo que muitos angolanos acreditam ser algo inexistente. Faço um esforço e tento reviver minha infância e afirmo aos que assim pensam estarem enganados. Em meu tempo de iniciação educacional, o chamado naqueles tempos de “pré-cabunga” e primeira classe, era muito mais que comum os pretos com algum nome africano se sentirem envergonhados, ”inferiores” na hora da chamada em relação aos mulatos e pretos, com nome todo em português, isto porque passavam o resto do ano sendo os referenciais ou as chacotas da turma e até da escola, em alguns casos, por carregarem alguma marca mais forte de ser um africano: o nome e ou ainda escalificações no rosto, “nomes nativos que até hoje em algumas localidades e conservatórias e notários continuam a ser rejeitados em pro, de nomes de matriz ocidental”.
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Os tidos como ideal de existência tinham nomes de brancos, eram mais aculturados e pertenciam a famílias, que em sua maioria, já eram quase que totalmente urbanas ou lutavam para o abandono de suas matrizes africanas, para assumir as matrizes europeias, neste caso o português. Famílias estas que, por exemplo, comer um funji e outros pratos africanos eram coisas exóticas, feita somente aos sábados ou uma vez ao mês. Assim como também era comum àqueles que tinham mães e avôs que usavam panos não aceitarem que estes fossem a reuniões dos encarregados de educação pelo mesmo motivo: passar a ser o referencial e chacota da turma e escola.
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Em relação à amizade, o legal era não ter amigos mulatos, mas os amigos de mulato eram logo chamados de caxicos dos mulatos, “esquebras dos colonos”, isso porque andavam sempre atrás e não à frente ou ao lado, as brincadeiras e etc. Em muitos casos, os mulatos não brincavam ou eram proibidos de estarem com os pretos, pois os pais não aceitavam tanto de um lado quanto outro — os pais mulatos porque não queriam seus filhos ficando pretos ou se misturando com pretos e os pais pretos porque os pais não queriam ver seus filhos como os esquebras dos colonos, isto porque sabiam o que representava para seus filhos pretos um mulato.
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Não entendia muito bem, até porque meus avos viviam no mato, e assim como boa parte da família, só após algumas conversas com minha avó materna, algumas questões começaram a ser clareadas em minha psique isto porque tinha e tem uma fala ainda muito pesada em relação ao mulato. “Casar com mulato não, é melhor casar com um branco, pois o mulato é pior que o branco”, pois assim como em praticamente todas as paradas do mundo, o mulato é encarado como uma figura ambígua daí o jargão em Angola “o mulato tem sete vidas que nem gato”, pois o gato é encarado na maioria das culturas africanas como um ser do mal, o animal que facilmente se deixa enganar por espíritos do mal, tornando-se ele mesmo o próprio mal.
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Certa vez, em uma das minhas viagens a Luanda, um fato me chamou muita atenção, na época existiam duas casas nocturnas com maior evidência — o Palos e um Pub que o nome me foge agora no mesmo bairro. Em ambos o branco ou mulato e ou o preto que andasse entre os brancos e mulatos tinham prioridade na hora de entrar na casa, mesmo ela estando lotada ou não. E para o efeito da garantia do cumprimento da regra, os seguranças, sempre pretos e em muitos casos suburbanos, que em sua maioria, detentores de uma anseiam de ascender socialmente. Ser alguém com amigos e conhecido na city, o do musseque que quer ser o urbano a qualquer custo nem que para isso tem de barrar os de pele escura.
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Práticas similares permanecem contemporâneas. Outro exemplo: fui ao Banco Espírito Santo Angola me informar sobre critérios e o que era necessário para abrir uma conta. Quando cheguei, fiquei assustado me perguntando se eu estava no Brasil ou em algum outro país das Américas: só havia brancos e mulatos atendendo, os pretos que vi eram duas senhoras da limpeza e os seguranças, entre várias outras coisas que poderia citar, para demonstrar a prioridade e preferências às pessoas de pele clara para ocupar cargos chaves.
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Três fatos sociais identifiquei como chave: primeiro, a herança européia dos mulatos, por terem herdado uma educação melhor em relação aos pretos, em sua maioria foram patrões dos pretos e com isso trataram tal igual o branco fez o preto, ou seja, os mulatos reproduziram e herdaram as práticas racistas; segundo, a ideia de que tudo que é europeu/branco é bonito e interessante, por isso a tendência de um mulato rejeitar seu lado africano e preferir o europeu, sendo assim, em Angola e na falta de um branco, vai o mulato; o terceiro e mais importante, à luta entre as elites mulatas que desfrutavam da condição de filhos de brancos e com isso detentores de documentação, que sonhavam após a expulsão do branco tomarem o poder e manter o status quo é do outro lado uma elite de pretos que emergiram das lutas contra o colonialismo e que sempre foram tratados de forma diferenciada até a independência de Portugal, salvo aqueles que tiveram de renunciar à sua identidade para adquirir uma cidadania, os chamadas assimilados.
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Outras coisas mais perversas mostram isso. Usando como referencial os 30 anos de guerra, que praticamente não gerou mutilados de guerras brancos e mulatos, ou porque a maioria, por ser neto e ou filho de português, tem a nacionalidade portuguesa, tendo facilitado na hora de sair do país ou evitado as chamadas rusgas do passado e ou ainda recenseamento militar. E quando não é essa a questão, o pertencer a um grupo politicamente dominante dos segundos e terceiro escalão de governança nacional. (Como se sabe, ciências políticas e administração são os escalões mais importantes, pois fazem a ligação entre o escalão mais baixo para o primeiro.)
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Creio que esta prática é sabida hoje por muito de nós. O que recomendo é o inicio imediato das discussões sobre estas relações ambíguas no seio da sociedade angolana, pois, caso assim não se faça, teremos ainda problemas sérios, visto que, quando algum grupo étnico se sente de alguma forma ameaçada, o refúgio à identidade étnica e o extermínio do Outro se torna o último caminho possível para soluções de problemas de relações entre grupos étnicos distintos, visto que, no caso de Angola, os brancos e mulatos representam cerca de 2% da população. Exemplos recentes em África o Rwanda, na Europa os Bálcãs, e recentemente a África do Sul e etc etc...
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Por: Nkuwu-a-Ntynu Mbuta Zawua

sábado, agosto 16

"Portuga"

Sou portuga como dizem aí em Angola, mas também sou um admirador de ÀFRICA, não apenas dos ditos países de expressão portuguesa, mas, sim, de toda a África. Sou um amante da literatura africana, fundamentalmente a que usa a língua portuguesa. Foi professor na Guiné - Bissau e Angola em períodos muitos difíceis destes países, penso que fiz um trabalho meritório como professor na Escola Agrária de HUAMBO "HOJI YA HENDA" e gostava de ter alguns contactos com os meus antigos alunos dessa escola. Será que podia alimentar esta esperança? Sei que é difícil...

Também sou um bloguista, por isso cato o que a este nível se passa em ANGOLA. Lei com assiduidade e sempre que posso o Vosso blogue, e sinceramente, gostei. Continuem...

Saudações para os mentores de http://desabafosangolanos.blogspot.com/

José Carlos Pacheco Alves

sábado, julho 12

REVISTA DA IMPRENSA: AS ELEIÇÕES CONTINUAM A INDUZIR VÁRIAS ABORDAGENS

«Partidos políticos sob ameaça de afastamento das eleições», este é o titulo principal do jornal Angolense, onde se fala da possibilidade de afastamento de alguns partidos políticos que apresentaram as candidaturas ao Tribunal Constitucional, já que agora se está numa fase de observação minuciosa da documentação.

«Os crónicos problemas da saúde», nesta matéria social, o jornal numa reporta os vários problemas que há muitos anos afectam o sector da saúde. Nesta abordagem o Angolense foi ao encontro dos programas dos partidos políticos para conhecer as ofertas que são apresentadas no plano da saúde.

Sobre economia, Gomes Cardoso promete penalizar as empresas que violam a legislação vigente. Esta matéria fala das leis ligadas ao comércio, como a lei que proíbe a entrada de produtos no pais com rótulo estrangeiro, mas que se continua a assistir este cenário nas prateleiras das lojas. O director nacional do comércio promete mão pesada para as empresas infractoras.

O Folha 8 traz como título principal «Dinheiro vai determinar vitória eleitoral», numa alusão ao financiamento da campanha. Outro título de capa «Miala e seus pares estão há um ano reclusos».

Aqui o jornal faz uma espécie de retrospectiva de tudo que se passou antes e durante o processo que levou à prisão dos quatro membros dos Serviços de Inteligência Externa.

Como chamada de capa no Folha 8, jornal português «O Público» acusa; «Kopelipa comprou quinta por mais de um milhão de euros em Portugal». Outra chamada. «Dinheiros confiscados da Angolagate, suíços desconfiam». «CEAST e as eleições, bispos querem vitória sem fraudes».

O Jornal Visão estampa «Kundi Paihama fora do MINDEN». O actual ministro da Defesa, general Kundi Paihama, será a próxima vítima a ser exonerado nos próximos dias pelo Presidente da República. Kundi Paihama deverá ser substituído por Armando da Cruz Neto, actual embaixador no Reino Unido.

Como outra chamada de capa. Independência para as Lundas. Isto pode provocar nova guerra. Os Lundas pretendem uma autonomia na Administração, defendem a independência ou o direito a um estatuto especial.

O jornal Visão traz outra chamada de capa, «Argola leva vida de inocente» o caso do super-intendente que matou no São Paulo.

Esta matéria prende-se com a morte de uma cidadã a queima-roupa, por um oficial da Policia por ter sido roubado o fio de ouro da sua esposa e fez um disparo que atingiu uma inocente.

«Depois do Canal 2, Tchize fica com a Movicel». «A Rádio Despertar pode fechar na próxima semana».

No jornal Agora, a principal manchete, «Pernoita dos votos foi chumbada». «Sonangol contra BPI». «INACOM quer fechar a Rádio Despertar». «Via expresso antes das presidenciais».

O Semanário Angolense sublinha no ante-titulo «Massanga Sakaita e Tchizé dos Santos têm «encontro marcado» na Assembleia Nacional». «O DNA» dos «herdeiros políticos» Massanga Sakaita, filho de Jonas Savimbi, e Tchizé dos Santos, filha do Presidente Eduardo Dos Santos».

Como chamada de capa, Hélder de Sousa «Rato» foi denunciado por uma vítima do salazarismo. O antigo «bufo» da PIDE-DGS, entre os quatros lusos do jornal «O País». O novo semanário do grupo «Nova Media» contratou 20 profissionais portugueses aos quais oferece salários de 6 mil e 500 Euros, casa em Talatona, carro e empregada doméstica.

«Poeira e obras nos arredores de Luanda». Como última chamada de capa «Mendes de Carvalho ameaçou abrir a boca».

O Novo Jornal traz como manchete «34 pré-qualificações». Referindo-se aos 24 partidos e 10 coligações, até ao dia 17 serão analisados os processos e depois ficar-se-á a saber quem e quantos estarão no boletim de voto. Verdadeira batata quente em mãos dos sete juízes são as candidaturas duplas, casos da FNLA e do PADEPA.

Vem ai o novo Sambizanga. Este município poderá ganhar uma nova imagem com a requalificação dos bairros Mota e Lixeira. O cadastro já começou, mas os moradores desconhecem o projecto.

Na contra capa «Refinaria do Lobito; Sonangol rompe com Braspetro». No epicentro desse divórcio esteve a tendência de imposição, por parte dos brasileiros, de condições extracontratuais tidas como incompatíveis que visavam a obtenção, pela Braspetro, de vantagens adicionais à sua presença na refinaria. (AMendes)

Enviado por: Margarida Castro

domingo, julho 6

Os estrangeiros...

Sou Angolana de nascimento, vivi 20 anos em Angola e esse é um País que eu amo e nunca sairá do meu coração. Não gosto de ouvir falar mal do meu País e muito menos do seu povo. Incomoda-me, irrita-me. Não consigo perceber as pessoas só vão trabalhar para Angola por causa do dinheiro. Não gostam do seu povo, das suas gentes e só são simpáticas e cordiais para angariar simpatia, essa simpatia chega ao ponto de abrir as portas de sua casa para ganhar confiança. Falam constantemente em corruptos e na facilidade em corromper.
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Dão-se ao luxo até de dizer quem corrompem, com nomes e tudo. Acham que somos tudo um bando de ignorantes, mesmo aqueles que se formaram, dizem que são um povo sem cultura geral e que têm cursos tirados à pressão nos países como Cuba, Rússia e África do Sul. Que é amigo de um chefe da policia em Luanda e que tem as costas quentes. Que ele não passa de um tolo que engraçou com o branco que até é simpático e sempre cordial. Que na DEFA consegue subornar que os vistos anteriores foi uma tal de (Dona) que ele dava gasosas que trazia de Portugal, livros de Direito, carteiras de peles etc... Agora diz que arranjou alguém com um posto bem alto que tem poder de decisão nos vistos para lhe dar um novo visto de trabalho diz que o visto desta forma sai…
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Em Maio ouvi isto tudo de um (senhor) que a Portugal tratar dos papéis e que até na embaixada tinha conhecimentos novos. Antes telefonava a um tal de (senhor) mas que este era mais vantajoso e melhor relacionado. Que o visto da maneira como ele está a tratar com tanta gente envolvida era certinho, mais quatro anos só a lucrar e depois logo vê se vale a pena continuar. Eu pergunto como é possível alguém que só tem o sexto ano de escolaridade permanecer como vendedor e ridicularizar o povo Angolano quando vem de férias. Como podem aceitar pessoas assim que não dignificam o País que os acolhe. Esse senhor esteve em Maio em Portugal para pedir um novo visto de trabalho.
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Quero ouvir falar bem do País onde nasci, cresci e fui feliz. O povo merece o melhor e não gente que não lhes dá o devido valor e os trata como imbecis.
Adorava nunca mais ouvir falar desta forma do meu povo da minha gente.

Obrigada pela sua atenção.
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Por: MARIA FERREIRA

sexta-feira, junho 13

Pesquisa Fracassada...

A ONU resolveu fazer uma pesquisa em todo o mundo.
Enviou uma carta para o representante de cada país com a pergunta:

"Por favor, diga honestamente qual é a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo".

A pesquisa foi um grande fracasso. Sabe porquê?

Todos os países europeus não entenderam o que era "escassez".
Os africanos não sabiam o que era "alimento".
Os cubanos estranharam e pediram maiores explicações sobre o que era "opinião".
Os Portugueses mal sabem o significado de "por favor".
Os norte-americanos nem imaginam o que significa "resto do mundo".
A assembleia Angolana está até agora debatendo o que é "honestamente".
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Enviado por: Anónimo

sexta-feira, maio 30

Um Desabafo Diferente

Angola entre os países mais pacíficos do mundo

O fim da guerra, a estabilidade política e realização de eleições permitiram a Angola tornar-se num dos países que mais subiram na tabela dos mais pacíficos no mundo em 2008.

A tabela, organizada conjuntamente pelo grupo de reflexão Instituto de Economia e Paz e pela Economist Intelligence Unit, destaca além de Angola, a Indonésia, Índia e Uzbequistão como os países que mais pontos positivos acumularam.

O estudo, que teve a primeira edição em 2007, somente com 121 países, é este ano liderado pela Islândia, que substituiu a Noruega como o país mais pacífico do mundo, de entre os 140 Estados considerados.

In: http://www.rna.ao/canala/noticias.cgi?ID=20932
Gentilmente cedido por: Vânia Mendes

terça-feira, maio 13

HORROR DO VAZIO

Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao longo do mar. Não é forçosamente para amealhar umas comissões, como imediatamente pensam os nossos cérebros borrados de preconceitos, embora uns tantos aproveitem. Nada de novo, afinal: o mundo está cheio de processos por causa do imobiliário e o cinema e a literatura até já esgotaram o tema. O que me preocupa é muita gente estar sinceramente convencida que isso é que é bonito e assim é que será viver bem. Têm horror ao vazio que nas suas cabeças significa uma praça, um jardim, um parque, um desperdício de espaço que ficaria melhor com uma torre no meio (antes dizia-se arranha-céus, mas reconheço o exagero americano ao inventar o termo, porque os céus não têm costas, são da natureza dos anjos, e ninguém imaginaria um edifício a arranhar as costas de um anjo). Torre é melhor, lembra logo aquelas construções onde se enfiavam os prisioneiros para morrerem lentamente, como a célebre Torre de Londres, ou onde se aninhava o povo da Europa medieval para se defender de ataques. Torre sim, pois os seus utentes/prisioneiros vivem no medo de sair à rua, de viver a cidade, enclausurados e protegidos da miséria que espalham à volta de si.

Queixamo-nos do trânsito na baixa da cidade (não só na baixa, sejamos justos) e nem sempre escapamos de lá cair, porque ali está concentrado mais de metade do capital financeiro e dos serviços do país. E querem fazer mais torres, para atrair mais gente e mais carros? Que as torres vão ter parques de estacionamento, dizem os defensores das ideias futuristas. O problema é entrar ou sair dos parques, porque as ruas estão atulhadas de carros. Claro que há uma solução do mesmo estilo: fazer as ruas da baixa com andares, género auto-estrada em fatias sobrepostas, ou até com viadutos por cima dos prédios, a arranharem as nuvens. Isso seria um arranhanço útil. E já agora peço, façam um túnel por baixo da baía ou uma ponte a ligar o bairro Miramar à Ilha, assim chegamos à praia em cinco minutos, como era há vinte anos atrás. Como de todos os modos a ideia geral é dar cabo da baía e da Ilha, também tanto faz, mais ponte menos ponte… Suponho também que já deve haver negociações para se tirar a Igreja da Nazaré do sítio onde está, a ocupar indevidamente um espaço nobre para mais uma torre. Uma pequena concessão não fica mal, mantém-se a igreja na cave do edifício. A História que se lixe, não foi a lição da destruição do palácio de D. Ana Joaquina? Então continuemos. Neste afã de ocupar todos os espaços, proponho também acabar com o prédio dos correios, bem feio e sem valor arquitectónico por sinal, e já agora com a praceta à sua frente, outro desperdício de espaço. E aquele compacto e azul edifício que serve a polícia? Um quarteirão inutilizado! A polícia pode ocupar um andar da nova torre. Com menos agentes, claro, para se fazer encolher o Estado, assim mandam os compêndios do liberalismo económico, nossa nova Bíblia.

Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.
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Por: Pepetela

domingo, abril 27

GOVERNO ANGOLANO ORDENA FECHO DO ESCRITÓRIO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU

O Governo angolano intimou o Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas em Angola a encerrar os seus serviços até fins de Maio próximo.

A revelação foi feita à Ecclesia pelo chefe do Escritório da ONU em Angola, Vegard Bye, que não deixou de estranhar a medida numa altura em que o país toma parte do Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Vegard Bye ressaltou a existência de um processo largo de negociação para estabelecer um acordo entre o Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas e o Governo de Angola. “Até Dezembro do ano passado eu estive muito optimista porque parece que estávamos muito perto de conseguir um acordo. Infelizmente não foi possível e a 4 de Março o Ministro da Justiça comunicou oficialmente à Alta Comissária, em Genebra, que o Governo não considera pertinente assinar este acordo e por essa razão o escritório aqui tem que fechar”disse.

Para Vegard Bye, a decisão do Governo contraria de algum modo a sua posição assumida no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

“Angola quando entrou para o Conselho de Direitos Humanos, mostrou justamente a vontade de manter um engajamento activo com o sistema internacional de Direitos Humanos, inclusive, a cooperar com o escritório de direitos humanos aqui em Luanda para mostrar, e este foi sempre o meu apelo ao Governo, para mostrar ao mundo e sobretudo à região africana que aqui há um Governo que apesar de não cometer violações massivas aos direitos humanos, quer ter uma colaboração e acompanhamento, dar o espaço para a comunidade internacional acompanhar o Governo neste processo e ao mesmo tempo ir construindo e aprofundando o sistema de direitos humanos em todo o país”.

No entender de Bye, existem várias violações de direitos humanos em Angola, sendo as mais flagrantes as dos direitos económicos e sociais.

“A violação mais importante aqui em Angola e em geral em África é a violação dos direitos socioeconómicos e sobretudo o facto de Angola ser o país com o maior crescimento económico do mundo. Isto contrasta com alguns dados por exemplo de Angola ser o segundo país do mundo em mortalidade infantil. Aí está um desafio principal de realmente assegurar os direitos básicos da população à saúde, à educação e à segurança social”, acrescentou o ainda chefe do escritório da ONU em Angola.

O “Apostolado” apurou que Vegard Bye deixa já Angola no fim desta semana, apesar do Escritório de Direitos Humanos funcionar até finais Maio. Também apurou que no princípio da próxima semana deverá chegar a Angola uma comissão do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.
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Artigo gentilmente cedido por Vania Mendes

segunda-feira, abril 14

“A senhora vai engravidar hoje mesmo”, garante pastor... Quando a fé caminha para publicidade enganosa

Uma senhora que, supostamente, anda aflita tanto quanto o marido, pelo facto de o casal não conseguir procriar, telefona para o programa da Igreja Universal do Reino de Deus, emitido pela Rádio privada em Benguela, na manhã de 27/09. O pastor, confundindo os seus limites e numa clara manifestação de ignorância, “atira à queima-roupa”: «A senhora vai engravidar hoje mesmo! Vou escrever seu nome no travesseiro sagrado».
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Já não sendo a rádio a via mais aconselhável para consultas a esse nível, no seu característico sotaque brasileiro, o pastor nem sequer procurou saber de eventuais antecedentes de problemas de saúde, se a mulher está no período fértil e muito menos se o marido está presente. Será que a fé do pastor é determinante para o surgimento de uma gravidez na data em que ele, o pastor, pretende?

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Pouco tempo depois, liga uma menina do Lobito cuja mãe andará com as pernas inflamadas há uma semana. Sem se dar conta, o megalómano das soluções instantâneas incentiva a violência: «Lançaram mau olhar sobre ela, alguém que quer tirar vida à sua mãe. A tendência é derrubar a sua mãe e atingir os filhos. Compareça na nossa Catedral da Fé, junto à identificação, no Lobito, a partir das 17 horas».

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“Será que este pastor estudou?”, reage indignado um estudante do Instituto Industrial que vinha no Hiace do Lobito. “Tira esse boateiro!”, exigiam os demais passageiros, cujo pedido entretanto é chumbado por outros que, ou gostavam da mensagem, ou viam nela uma anedota “agradável” para começar o dia.
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Gociante Patissa

domingo, março 30

UM POUCO DE LUZ

Chega ao fim o segundo mês de 2008 e com ele a vontade de continuar a escrever. Espero que desta vez seja para ficar com alguma regularidade aceitável.
O país soma e segue com sinal mais na estabilidade macroeconómica e no crescimento da economia. A estabilidade política vai sendo uma realidade. Com o anúncio das eleições legislativas para 5 e 6 de Setembro, os partidos políticos vão arrumando a casa para estarem prontos.
Nesse capítulo especial, precisamos aprender com os erros de 1992 e os acontecimentos recentes do Kenya. Quando líderes sem escrúpulos querem satisfazer os seus desejos sem medir meios, o povo paga muito caro. Então, que haja um esforço concertado e elevado para termos um pleito eleitoral de que nos possamos orgulhar é o nosso voto.
Atenção aos líderes predadores. Como se diz por cá «o sandji yomeke yipayela ava valya!!!»
Até breve!!!
Upindi Pacatolo
In: http://upindi.blogspot.com/2008/02/um-pouco-de-luz.html

quinta-feira, março 27

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Fonte: Jornal de Notícias

sábado, março 8

Crianças condenadas a morrer


É notícia num jornal diário gratuito de Londres 'METRO'.
Repassem este email para que chegue até Angola, se possível ate aos gabinetes dos menos desinteressados governantes angolanos.


Diz-se que a economia do País está a crescer, então o porquê de não haver melhorias? Resumindo o que dizem as notícias, para aqueles que não percebem Inglês, a notícia em que está a foto de 1 senhora com o balde de água as mãos diz:
“Rosalin Epembe de 42 anos de idade teve 8 filhos, 2 deles faleceram. Todos os dias ela é relembrada das desigualdades económicas .(em 1000 crianças 260 morrem, mais 162 mortes do que devia)
Ela vive no Mussulo, praia arenosa literalmente com casas de luxo e aos fins-de-semana acomodando playboys ricos que muitas vezes são ouvidos fazendo corridas quer de motas ou jet skis. Rosalin não pode custear a viagem para a cidade todos os dias em busca de água potável por isso ela tem de tirar água salgada do solo (chão). Ela diz que 'muitas vezes os meus filhos a noite têm dor de estômago e não conseguem dormir', acrescentando ainda que 'quase todos os dias morre uma criança aqui no Mussulo devido a diarreia'. Também diz que a criança sobreviveria se os pais podessem custear o pagamento dos tratamentos e se o posto médico tivesse os remédios necessários; 'o hospital é pequeno e só para os primeiros socorros. E se uma criança fica doente eles não têm os devidos medicamentos, especialmente se for a noite. Terás de pagar e as pessoas não têm dinheiro.

Quanto ao artigo 'Children doomed to die', quer dizer 'Crianças destinadas a morrer'... resume-se que; Esforços para reduzir o número de mortes de crianças no mundo em desenvolvimento está destinado a fracassar. Países como Angola, rico em petróleo, merecem ser apontados para criticas devido o continuo fracasso. Diz ainda que em Angola a taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos e' de 260 em 1000, que é 162 vezes mais (mortes) do que devia ser pelo tamanho da economia do País. Angola é o pior país do mundo, seguido logo pela Serra-Leoa."

É triste a nossa Angola, e ainda fartamo-nos de ouvir que as crianças são o futuro do Pais... será?
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Enviado por Dra. Nerika

sexta-feira, fevereiro 22

A polémica sobre a música de Dog Murras

Estimados leitores,

Não me é possível atestar a autenticidade do artigo que a seguir divulgo. Ele circula na internet como sendo da autoria de Tchizé dos Santos, jornalista e filha de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola.

O artigo, segundo pude perceber, foi publicado pela autora com a pretensão de crítica a uma música do cantor angolano, Dog Murras, um “ku Duro” com uma letra que me parece, de certa forma, hostil mas que não fala mentiras e que num Estado de Direito e Democrático não levantava tanto sururu.
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Entre tanto alguém que, tal como eu, percebeu a intenção de Tchizé dos Santos, respondeu a autora em mail que também circula na internet e juntamente público aqui.
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Artigo de Tchizé dos Santos em Resposta à Música do DOG MURRAS.
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Ouvi recentemente a polémica música do cantor Dog Murras e como jornalista, não pude ficar indiferente à sua letra.
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Creio que o Dog Murras canta algumas verdades, mas como figura de referência que é, não devia fomentar a desunião e a frustração que todo o povo angolano vive, no anseio por uma Angola reconstruída e totalmente recuperada da guerra, onde todos os nossos filhos possam ir à escola e onde já não teremos as ' diarreias ' de que ele fala e que todos nós já tivemos. Mas o próprio Dog Murras há de saber que não se constrói um país em 5 anos, nem em 10.
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Ninguém gosta de ser relembrado que vive num país com dificuldades, estradas esburacadas, paludismo e outros problemas, aos quais estão expostos TODOS os angolanos, RICOS E POBRES. Todos passamos pelos mesmos buracos e todos sofremos no mesmo trânsito no dia-a-dia, Ricos e Pobres. E todos continuamos a amar a nossa Angola, Ricos e Pobres.
Temos é que trabalhar UNIDOS por uma Angola melhor e por um futuro melhor para os nossos filhos, ricos ou pobres. E para esquecer as “malambas” , então juntamo-nos ao fim-de-semana e dançamos os Kuduros do momento que geralmente, esperamos que nos entretenham e nos façam esquecer os problemas, ao invés de nos frustrar ainda mais.
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É preciso entender que os obstáculos fazem parte do percurso e que os ' engraxadores ' , ' bajuladores ' , os “Kotas Bosses” , e outros delinquentes do colarinho branco, existem em todas as sociedades e passam por cima de outros cidadãos, ricos ou pobres . É o dia-a-dia da batalha pelo ganha-pão. A discrepância social infelizmente é um mal global que temos que combater, JUNTOS, e não desunidos e odiando-nos uns aos outros e fomentando o ódio, ou criando bodes expiatórios como os emigrantes estrangeiros ou os ricos, que na sua maioria um dia também foram pobres.
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O problema é que infelizmente alguns “pseudo-novos-ricos” angolanos esquecem as suas origens e querem passar por cima do seu vizinho que saiu do mesmo bairro e acham que têm direito a tudo na lei da força. Isto é que tem que acabar, pois o dinheiro e o poder não identificam um ser humano. Os seus valores sim o caracterizam, fazendo dele um bom ou mau angolano.
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Também acho que os Chineses não têm culpa da nossa herança histórica que traz consigo poucos quadros angolanos capazes de fazer as obras que eles fazem com aquela rapidez.
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O que seria melhor? Não fazer as obras porque não sabemos fazer bem e rápido, ou chamar expatriados que façam bem e aprender com eles a fazer melhor ainda? Temos que ser humildes e reconhecer que Angola é um país novo no qual TODOS estamos a aprender como se constrói uma economia de mercado forte. Ninguém nasce ensinado.
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Agora coloquem-se no lugar do Chinês, Francês, Brasileiro, etc... Quem trabalha de graça na terra dos outros? Claro que os expatriados têm de ser recompensados por irem para a nossa terra dos buracos, do paludismo e da poeira, como diz o próprio cantor, que aliás é um compositor genial.
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Creio que os senegaleses, zairenses e malianos também não podem ser culpados da nossa falta de competitividade, ou inexperiência natural de um país com 32 anos, que os deixa vencer a concorrência nos nossos próprios mercados. E por fim, os portugueses não têm culpa do facto de gostarmos tanto de comer o seu chouriço, bacalhau com natas, Sumol de ananás e cerveja Sagres, em vez valorizarmos a nossa CUCA e Nocal e o Yuki, ou a chikaungua da terra nas festas e bailes onde agora finalmente já dançamos as músicas dos nossos cantores e compositores sem vergonha.
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Conclusão, temos que trabalhar, pois ser empregado não é vergonha, ser pobre não é vergonha. Trabalhar até de madrugada não é vergonha. Vergonha é ser-se arrogante, ser-se fraco e baixar a cabeça quando um obstáculo se nos impõe. Vergonha é ficar a lamentar os problemas de braços cruzados. E o Angolano não é fraco. O angolano não é violento. O angolano é orgulhoso, mas também é lutador. E com o seu jeitinho, vai resolvendo os problemas. Sejamos unidos, ouçamos as críticas do Dog Murras, sem entretanto interpretá-las como um estímulo ao racismo, nem à desunião dos angolanos, pois com certeza não é essa a intenção do poeta. Enfrentemos a nossa realidade de frente e sem hipocrisia, mas creio que Angola não é dos Chineses, nem dos portugueses e nem dos brasileiros. Angola é mesmo dos angolanos! E nós temos que nos instruir, temos que batalhar e ganhar experiência de trabalho para não nos deixarmos enganar pelo senegalês, brasileiro, português, francês, inglês, chinês na nossa própria terra, pois a ignorância é o maior inimigo do homem e o esclarecimento a melhor ferramenta para o sucesso.
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Por: Tchizé dos Santos
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A resposta…
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“O artigo anda na net...mas tenho dúvidas quanto á sua putativa autora. Por um motivo simples: ela, intitulando-se jornalista, tendo feito estudos em Portugal e Boston , não poderia escrever uma matéria tão fraca e com um português tão medíocre...
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Há ainda um outro motivo pelo qual duvido: sendo filha de quem é, decerto os inúmeros assessores de que dispõe a desaconselhariam a escrever uma matéria tão "precipitada" como esta. Mas adiante: seja quem for a(?) autora (o?) deste texto , há coisas que não se podem engolir e calar. Fervem cá dentro e mexem com o sangue de qualquer mortal que se considere decente.
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Para inicio de conversa, a música do Dog Murras não canta algumas verdades. Canta a verdade! E como qualquer verdade tem o mérito de desagradar ao regime, eis aqui uma defensora das causas impossíveis.
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Desde quando a verdade promove a desunião e a frustração de um povo?!!! Não é a música dele que nos causa desunião e frustração. A desunião é-nos causada pela verificação diária de que uns são filhos e outros nem enteados são; que uns andam nos buracos em cima dos Prados, BMW e Hummers e os outros, a MAIORIA, andam nos buracos a pé sem saber onde aqueles primeiros foram buscar o dinheiro para comprarem aqueles carros quando aos outros falta para o pão-nosso de cada dia.
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E a frustração é causada pela facilidade com que uns têm e ostentam uma riqueza acabada de chegar não se sabe de onde e os outros, a maioria, morre de doenças que já tinham sido erradicadas no País.
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Não se constrói um País em cinco nem em dez anos. Mas o mesmo não se pode dizer das fortunas dos RICOS recém-formados.
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Em 32 anos de independência destruiu-se um País e edificaram-se fortunas colossais à sombra dos poderes instituídos e tolerados pela maioria.
Ninguém gosta de ser relembrado (?) - sic - que vive num País com dificuldades, estradas esburacadas, paludismo e outros problemas, mas só uns conseguem esquecer: os RICOS.
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Sim, temos que trabalhar unidos. Aqui cabe uma célebre frase que ouvi há anos: quando alguém nos diz que estamos todos no mesmo barco, invariavelmente ele quer que nós rememos e ele fica ao leme...
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Os delinquentes de "colarinho branco" existem em todas as sociedades. Sim. Em Angola são protegidos pelo sistema, fazem parte dele e da tal elite que se acha RICA.
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E uma angolana tão veemente na defesa dos nossos valores não pode humilhar-nos assim...Temos 32 anos de independência. Angola patrocinou milhares de bolsas de estudos. Portanto temos quadros capazes de ombrear com os chineses, portugueses, brasileiros, franceses...Onde eles estão?!!! Subaproveitados. Quem manda vir os estrangeiros ao abrigo de acordos que ninguém sabe e ninguém vê, ganha com a vinda deles e perde muito se aproveitar quadros nacionais. Vejam as estradas construídas pelos brasileiros e as lições de competência que os engenheiros angolanos têm vindo a dar nas suas críticas e sugestões...
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Discrepância social não é um mal global coisa nenhuma. É um mal dos Países atrasados e corruptos. E essas discrepâncias são mais gritantes em Angola porque, os RICOS, os tais que chegaram à meta sem mesmo correrem, enchem a boca dizendo que somos um País rico, que atingimos índices de desenvolvimento únicos no mundo. O povo ouve, pára, olha e pasma. Cadê o tal de desenvolvimento?!!!
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Falta de competetividade?!!! Nós, angolanos?!!! Somos competitivos. Singramos lá fora no estrangeiro sem as asas protectoras de regimes corruptos e nauseabundos. Dentro do nosso País é que nada podemos fazer, pois os "grandes" preferem beneficiar os estrangeiros. Afinal, eles nunca lhes poderão fazer frente, pois não?!!!!!
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E chamar GENIAL a um compositor como o Dog Murras...haja paciência. Genial?!!! A autora não pode saber o significado da palavra. Que é um compositor (??) da moda, que faz música que a juventude gosta, que é nacionalista, que promove a imagem de Angola ...concordo. Mas GENIAL?!!!!! Haja Deus!!!!!!!!! E haja paciência.
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Assessores precisam-se!!!!
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Por: Anónimo"

segunda-feira, fevereiro 18

Escritor angolano recebe prêmio em Portugal


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Imagem gentilmente cedida pela Sra. Margarida Castro

domingo, fevereiro 10

MÁ GOVERNAÇÃO, ARROGÂNCIA E OSTENTAÇÃO SÃO OS PECADOS CAPITAIS DO MPLA

Entrevista do Semanário Angolense:
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"Luanda - O próximo ano poderá ser de grandes decisões políticas no país. Para medir a pulsação ao que aí vem, o Semanário Angolense deu a palavra a Paulo de Carvalho. na visão deste reconhecido siciólogo, tudo indica que o período de campanha eleitoral, em 2008, venha a ser um período relativamente difícil. .
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Se por um lado os angolanos pouco reivindicam quando devem e vão por isso aproveitar o período de campanha para tentar sarar várias feridas, por outro os partidos políticos têm ainda dificuldade em separar o interesse nacional dos seus próprios interesses.
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Um aspecto positivo a destacar tem a ver com o adiamento das eleições, por algum tempo, após o termo da guerra. "Posso hoje considerar tratar-se de um acto de coragem e de sensatez, pois mais do que quaisquer eleições, era preciso garantir que não haveria retorno à guerra. Mas vai finalmente haver eleições, sendo de recomendar aos políticos dos vários lados que façam o seu trabalho e cumpram a sua missão, mas com alguma contenção", recomendou.
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Para si, é preciso ainda que "os «mais pequenos», que têm muito pouca probabilidade de chegar ao poder, não utilizem o período eleitoral para fomentar a violência e procurar tirar daí algum benefício".
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SA – Os nossos partidos estão, de facto, preparados para o jogo democrático?
PC – Para ser franco, acho que a maioria dos mais de cem partidos políticos angolanos não está preparada para qualquer jogo democrático. Aliás, podemos facilmente constatar que na esmagadora maioria dos partidos políticos de Angola não existe internamente democracia. Portanto, se eu não tenho democracia em minha casa, como a poderei transportar para fora de casa? Se eu demonstro não ter capacidade para ouvir os demais a um nível restrito, como o poderei fazer num nível muito mais alargado? Tem mesmo de haver eleições, para que diminua o número de partidos políticos e para que aqueles que sobrevivam (partidos políticos e coligações) fomentem as suas ideologias e criem os seus programas.
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SA – Como poderão sobreviver aqueles partidos que não aparentam qualquer base ideológica, sem uma linha de pensamento político definida?
PC
– Um estudo que fiz em 2006, com os doutores Víctor Kajibanga e Mário Pinto de Andrade, demonstra que os partidos políticos angolanos se encontram livres de alinhamento ideológico. O Mpla deixou de ser de esquerda, sendo agora um partido de massas, que pretende albergar todas as sensibilidades. Mas o seu programa de governo situa-se agora naquilo que podemos considerar centro-direita.
Já a Unita continua sendo um partido de massas, não se lhe conhecendo qualquer programa de governo. Quanto aos demais, a conclusão genérica é de não haver alinhamento, pois o fundamental para eles é conseguir-se uma fatia do poder, podendo o alinhamento ideológico dificultar essa pretensão.
Claro que há algumas excepções: por exemplo, a FpD (um partido de quadros, dos poucos com base claramente estratificada) assume-se como partido político de centro-esquerda. Já para responder à sua pergunta, parece-me que a ausência de linha ideológica não dificulta a existência de qualquer partido político em Angola, visto essas agremiações existirem com base noutros critérios de natureza sociológica. Não nos esqueçamos que não existe tradição democrática em Angola. Aliás, no caso actual de Angola e vista a coisa de forma simples, o alinhamento ideológico pode inclusivamente retirar alguns votos aos partidos políticos.
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SA – O que irá pesar mais para a decisão do voto – a afectividade, a identificação de ideias com um determinado partido ou a mensagem social e económica que os partidos fizerem passar?
PC – Não me parece que sejam os ideais e programas políticos a comandar a intenção de voto. Haverá certamente outros factores, como a identidade étnica e a proximidade (ou afectividade, como lhe queiramos chamar), segundo outros critérios. Para o caso do voto no Mpla, obviamente que contará também a forma como vem governando. O que me parece é que o eleitorado tradicional da Unita se manterá irredutível, ao menos até à altura em que este partido político assuma o poder.
Já o eleitorado tradicional do Mpla (que é quem governa há mais de 30 anos) está hoje dividido: de um lado mantêm-se os ainda «irredutíveis», mas há uma franja considerável de pessoas que hoje pensam abster-se ou que se deslocaram para o grupo de indecisos. É sobre esta franja que os partidos políticos têm que agir, de forma a direccionar para si o seu voto.
Excluindo aqueles poucos angolanos que «tradicionalmente» se abstêm, estou convencido que as demais abstenções sairão fundamentalmente do anterior eleitorado do Mpla e dos seus descendentes, que são uma grande fatia do eleitorado. Por isso é que se deve considerar que, hoje, uma abstenção equivale a um voto contra o Mpla, ou seja, a um voto a favor dos demais partidos políticos, com destaque obviamente para a Unita.
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SA – Teremos estratificação do voto (analfabetos, instruídos, privilegiados, etc.)? Haverá uma tendência definida em termos de inclinação partidária de cada um destes estratos?
PC – Não me parece que a estratificação social venha já a definir claramente a intenção de voto em Angola. O que pode ocorrer é que isso aconteça numa ou noutra pequena região do país, mas nunca em termos globais. O normal continuará a ser a regionalização do voto, por pelo menos mais dez anos. E isso tem a ver não só com razões de natureza cultural ou étnica, mas também com razões de natureza socioeconómica.
Não nos esqueçamos, por exemplo, que a região leste do país foi sempre a mais marginalizada, tanto no período colonial, como após a proclamação da independência política. Por outro lado, não nos devemos esquecer que o interior do país também tem sido marginalizado por Luanda, no âmbito até da própria sociedade. Todos estes factores jogarão papel preponderante no momento do voto. Talvez o elemento fundamental a considerar tenha a ver com a penalização do Mpla devido à má governação, e à arrogância e ostentação por parte de um número considerável de governantes.
Os governantes estão distantes das aspirações e da vontade popular, os deputados idem; obviamente que o Mpla vai ser penalizado por isso. Como é possível, por exemplo, manterem-se até hoje governadores de província que estão preocupados apenas consigo próprios e com os seus interesses particulares?
Como é possível manterem-se ministros cujos ministérios são autênticas múmias, sem qualquer actividade e em nítido prejuízo do desenvolvimento? Como é possível haver deputados que demonstram ser apenas representativos de si próprios e não de quem os elegeu? As pessoas estão atentas a isso; aliás, sentem isso diariamente na carne. Como se sente, por exemplo, um jovem eleitor de uma província do interior onde estive há pouco tempo, que lamentou o facto de ter de pagar aos professores para aprovar? Toda a gente sabe que isso acontece por Angola e ninguém faz nada. A manter-se esta situação, o Mpla vai ser seriamente penalizado nas urnas por esta actuação. Temos que saber que há mais: há províncias onde se o governador for hoje exonerado, a população vai festejar durante alguns dias – vão fazer-se passeatas e a população vai dançar e pular de alegria. Se o Mpla não sabe disso, está a dormir, esquecendo-se que depende do voto popular para se manter no poder. E não nos esqueçamos que quanto mais nos afastamos do termo da guerra, cada vez menos um voto no Mpla será um voto contra outro partido político.
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SA – Podemos ficar com a impressão de que não existem bons governantes em Angola?
PC – Não, de maneira nenhuma. Claro que há bons governantes em Angola. Ao contrário do que acontecia há 20 anos, as últimas equipas económicas do Governo têm tido bom desempenho, tanto que decidiram arregaçar as mangas e ouvir os técnicos, daí ter-se superado de forma correcta a crise económica. Há crescimento económico.
O problema está ainda na distribuição do rendimento, em relação ao que só agora se ensaiam passos que se esperam significativos. Há ministros e vice-ministros a fazerem bom trabalho, exemplo, na Administração do Território, nas Pescas e no Planeamento. Há governadores com bom desempenho e boa avaliação da população, como sucede por exemplo no Bié, Malanje e Namibe.
Claro que estes são só alguns dos bons exemplos, mas há outros bons governantes, como são os casos dos sectores da defesa, justiça, comunicação social, emprego e assistência social, dentre outros. São apenas alguns exemplos, porque numa entrevista não posso ser exaustivo. Mas há ainda um aspecto importante a reter, que tem a ver com uma recente opção que é de saudar – a da desconcentração orçamental. Uma maior autonomia das províncias e municípios só trará vantagens, desde que haja fiscalização, obviamente.
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SA – O Mpla é um partido com ampla difusão nacional. É inegável. E a Unita, será que este partido já se urbanizou? No discurso ao menos?
PC
– Enquanto o Mpla está já a ser penalizado pela má governação, pela corrupção generalizada, pelo distanciamento em relação aos anseios e expectativas da população e pelo esquecimento em relação aos seus antigos dirigentes, a Unita será ainda durante algum tempo penalizada devido à guerra e devido à hostilização ao meio urbano. É claro que quanto mais tempo passa após o termo da guerra, diminui quantitativamente a penalização da Unita.
Temos de considerar que a Unita se vem «urbanizando», sem no entanto se desenraizar, o que constitui boa opção para quem pretende um dia assumir o poder. Angola é cada vez mais urbana (ou melhor, suburbana) e só Luanda constitui cerca de um terço dos eleitores. A Unita demonstra agora ter plena consciência disso.
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SA – Vê o Mpla com estofo suficiente para aceitar, democraticamente, uma eventual derrota nas urnas?
PC
– Ninguém gosta de perder o poder que tem. Mas se o resultado for esse, o Mpla terá de o aceitar. Agora, se o Mpla perder as eleições, tenhamos consciência que será o único responsável por isso. Não poderá acusar outros. E essa responsabilidade é maior ainda, se considerarmos que «o maior cego é aquele que não quer ver».
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SA – Se as eleições fossem realizadas hoje, o Mpla ganharia?
PC
– Infelizmente, em Angola não se encomendam sondagens políticas – e quando se o faz, importam-se estrangeiros que normalmente vêm aldrabar, pois nenhum estrangeiro conhece a sociedade angolana ao ponto de criar amostras credíveis. Não havendo pesquisa, não se pode responder a esta pergunta com toda a certeza.
O que me parece, entretanto, é que hoje o Mpla ainda ganharia em Luanda, com margem mínima – um pouco acima ou um pouco abaixo dos 50%. Isso hoje, pois se a situação se mantiver como até aqui, o mais certo é que nem sequer ganhe em Luanda no próximo ano, devido a uma crescente opção pela abstenção no seio da sua falange tradicional de apoio. Mas no interior do país o Mpla perderia hoje de forma drástica.
Se considerarmos todo o território, o resultado, hoje, seria certamente a derrota eleitoral do Mpla, com festa no interior do país. Mas não estamos ainda em período eleitoral, de modo que o Mpla ainda pode fazer alguma coisa para alterar o actual estado de descontentamento em relação ao governo como um todo e, fundamentalmente, em relação a alguns ministérios e a um bom número de governos de província. Se o Mpla não mexer já em algumas pessoas devidamente identificadas, com mudanças de acordo com as expectativas da população, então a situação piorará nos próximos meses. Esta é a leitura objectiva que faço da actual situação política e social no país e dos consequentes resultados eleitorais.
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SA – Mas o MPLA afirma ter hoje acima de um milhão de militantes…
PC
– Um grande crescimento do Mpla, tal como um eventual crescimento da Unita nos últimos tempos, é ilusório, pois não é prenúncio de vitória eleitoral. O que se passa é que muitos dos novos militantes do Mpla fazem parte do seu eleitorado tradicional. Trata-se fundamentalmente de pessoas que votam tradicionalmente no Mpla, de modo que não se pode esperar que a sua filiação traga mais votos para esse partido político. Não é por aí que o Mpla deve atacar, até porque haverá hoje pessoas com mais de um cartão de militante…
Caso tenha intenção de vencer as eleições, ao nível do executivo (menos a nível central e mais a nível intermédio e de base), o Mpla tem de tirar quem está a dar votos à oposição e colocar quem ainda possa fazer alguma coisa positiva; tem de se investir seriamente no social; os governantes têm de começar a estar perto das pessoas; tem de se estancar o elevado índice de corrupção em escolas, hospitais, centros de saúde e na polícia; tem de se afastar os gestores de empresas públicas que só pensam em si próprios, que fomentam a confusão, que não sabem dirigir pessoas e que não conseguem sequer executar um projecto simples (há-os, inclusivamente, no sector da comunicação social do Estado).
Mas tem também de se deixar de hostilizar e de se começar a apoiar devidamente os antigos dirigentes, porque o cidadão pensa nos seguintes termos: «Se fulano, que já foi ministro ou governador, hoje é kandongueiro, que apoio poderei eu amanhã receber do Mpla ou do seu governo?»
E se o Mpla perder as eleições?
Sosseguem: o mundo não desabará!
Muitos cidadãos mostram-se apreensivos com um cenário em que o Mpla perca e se veja, de repente, na oposição. Que consequências adviriam de uma eventual derrota eleitoral do Mpla, depois de mais de trinta anos de poder e exercendo controlo absoluto sobre todos os aspectos da vida nacional, incluindo instituições e empresas? O sociólogo Paulo de Carvalho respondeu a essa questão com a maior serenidade. Ele acha que isso não levaria
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PC– Temos de ter consciência que ninguém nasceu para exercer eternamente o poder – nem pessoas, nem partidos políticos. Se o Mpla continuar a trabalhar para perder as eleições, é claro que o mundo não vai desabar. E todo esse controlo absoluto terminará.
Agora, para que o Mpla se mantenha no poder, tem de trabalhar para isso e não trabalhar a favor da sua oposição, como bom número dos seus dirigentes o fazem, alguns até de forma descarada e sem qualquer chamada de atenção. Um outro aspecto importante tem a ver com a resolução de alguns dos seus problemas internos, em relação ao que o Mpla continua a demonstrar falta de capacidade.
Para quando o momento de reconciliação em relação aos vários «afastamentos» registados durante a história do Mpla? O Mpla fez 50 anos e o seu mentor e real fundador nem sequer recebeu uma medalha a título póstumo? Pode não parecer, mas as pessoas comuns estão atentas a isso. E perguntam-se: «Se o Mpla não consegue ultrapassar as suas próprias quezílias do passado, como poderá continuar a governar?» E eu acrescento: se o Mpla esquece até o seu próprio mentor (o autor do manifesto), o que não sucederá consigo um dia que deixe o poder?
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SA – Com a vida política actual, em Angola, e com os políticos e cultura democrática que temos, como prevê que venham a ser recebidos os resultados eleitorais?
PC
– Essa é uma séria incógnita. Mas parece-me que o fundamental está praticamente conseguido: guerra nunca mais! Um passo importante foi o registo eleitoral, cujos resultados ultrapassaram verdadeiramente as expectativas, estando por isso de parabéns o ministro Fontes Pereira e a sua equipa.
Uma vez mais demonstrámos a toda a gente que em Angola é possível fazer bem as coisas, com profissionalismo e elevado sentido de responsabilidade. Também será possível um comportamento digno durante a campanha eleitoral e durante as eleições para que Angola prossiga o seu rumo, com normalidade. Independentemente dos resultados eleitorais de 2008, será fundamental a renovação parlamentar, pois temos deputados que há muito deixaram de representar quem quer que seja.
Por incrível que pareça, há até deputados que são eternos desconhecidos – como hão-de representar quem os não conhece? Como hão-de representar pessoas cuja vontade desconhecem? E como hão-de liderar ou fazer opinião, se essa opinião não existe ou se é desconhecida dos respectivos eleitores?
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SA – Conhece casos, pelo mundo fora, em que instituições e serviços públicos tão fortemente marcados pela influência de um partido aceitem ou facilitem a liderança de um outro partido que vá formar um governo novo?
PC
– Sim, há casos desses. Que remédio terão os serviços públicos, senão adaptar-se à vontade dos eleitores? Se as mudanças parlamentares forem substantivas, terá também de haver algumas mudanças governamentais já em 2008, para que os programas de governo passem no parlamento. Mas vejamos o nosso próprio exemplo, em 1991.
Nessa altura, o Mpla a estava a preparar-se para uma derrota eleitoral. É claro que hoje a situação é diferente, pois não acredito que alguém de fora do Mpla faça a sua campanha – o contrário sim, ocorre actualmente. Mas se vier a haver mudanças no governo, é preciso que se distingam os lugares de carreira dos lugares políticos. Acredito que isso será tido em conta, até porque hoje também existem funcionários públicos de médio e alto escalão que militam em partidos políticos que não o Mpla. Quer do lado do Mpla, quer do da Unita, parece-me haver consciência da sensibilidade desta matéria. Não me parece, pois, que venha a haver problemas a esse respeito.
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SA – Considera que terão já começado os primeiros passos rumo à campanha eleitoral?
PC
– Para ser honesto, não me parece. Não me parece que nem a Unita
nem o Mpla estejam já preparados para o início da campanha eleitoral para as legislativas. A Unita fez recentemente um congresso, estando por isso aparentemente mais próxima dessa preparação. Quanto ao Mpla, que governa, está muito longe disso. No seu mais recente discurso, o presidente do Mpla dá conta de ter consciência de que a situação não é das melhores. Aguarda-se, pois, que a direcção do Mpla tome as medidas correctivas. Só depois disso se poderá pensar na campanha eleitoral.
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SA – Assistimos, agora, embora em estado latente, a uma certa tensão social que muitos atribuem às disputas pré-eleitorais. Que leitura faz?
PC
– Não me parece que seja exactamente isso. Há divergências que são próprias do processo político e há outras que são fomentadas devido a um certo afastamento das direcções partidárias em relação aos órgãos intermédios. Em Angola, o afastamento físico ou geográfico ocasiona afastamento em termos de actuação.
Talvez a Unita seja o caso de menor afastamento da direcção em relação às estruturas intermédias e de base. Agora, é de esperar que haja quem procure tirar dividendos políticos de qualquer estado de tensão social. Os partidos políticos têm de estar preparados para essa evidência. Têm de estar preparados também para o facto de haver actores políticos na chamada sociedade civil – pessoas com ambição política, que utilizam instrumentalmente órgãos da sociedade civil. E esta não é apenas uma característica de Angola.
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SA – Incidentes como as mortes do taxista no Huambo e da zungueira no mercado dos Congolenses e os confrontos de vendedoras e polícias no Namibe podem ser usados como armas políticas?
PC
– Absolutamente. Trata-se de repressão e de assassinatos. É uma vergonha. Não consigo compreender como é possível este tipo de actuação, que se sabe à partida que será oportunamente utilizada contra o partido político que governa. Mas isso não é tudo, sobre esta última operação. Como há delinquentes a circular de motorizada, alguém na polícia deu ordem de apreensão de tudo quanto é motorizada, como se os delinquentes fossem as motorizadas e não pessoas.
Não faz sentido. Só age assim quem pretende deliberadamente prejudicar o bom andamento dos serviços e a normalidade. Sei de serviços que ficaram prejudicados devido a tais apreensões de mais de 72 horas, sem motivo e sem qualquer satisfação. Quem terá tomado essa decisão? Como foi essa pessoa penalizada? Senão, vejamos: como sabemos que há delinquentes que circulam e actuam em viaturas, será que na próxima operação se vai apreender tudo quanto é viatura? Não faz sentido. A polícia existe para garantir e não para prejudicar a ordem.
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SA – Voltando àqueles incidentes, seria muito difícil encontrar soluções que os antecipassem?
PC
– Não, não seria tão difícil assim, tendo em conta que se trata de incidentes que se vêm repetindo e não apenas um incidente isolado. Actos como esses têm de ser prevenidos. Quanto à polícia, é preciso prevenir a todo o custo os casos fortuitos que mencionou, que são inconcebíveis e demonstram haver na corporação pessoas dispostas a prejudicar a ordem. Agora, temos de reconhecer que o elevadíssimo índice de delinquência diminuiu durante este ano. Mas é preciso que as competentes autoridades vão mais longe – primeiro, reconhecendo a existência entre nós de crime organizado; depois, combatendo o crime organizado, de forma eficaz. Entretanto, é indispensável também a actuação governamental em prol do bem-estar e do progresso. Para além disso, é preciso que governantes e agentes da autoridade fomentem os bons exemplos na sua prática diária. Tudo isto, em conjunto, vai permitir a prevenção da criminalidade.
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SA – E a prisão do jornalista Graça Campos? Poderá também ser utilizada por vários partidos como arma política?
PC
– Claro que sim. Trata-se de mais uma demonstração de que o Mpla não se está ainda a preparar para o confronto eleitoral – porque é o Mpla que está no poder e, quer queiramos quer não, o poder judicial tem relativa dependência do Mpla. Mas olhe que Graça Campos não só foi preso com a razão do seu lado, como também foi mantido um mês na prisão. Para quê? Parece que o Mpla ainda não se apercebeu que é o único responsável pelos últimos «mártires» da história recente de Angola.
Se o Mpla vinha dando rajadas nos próprios pés, hoje subiu já para as próprias pernas e coxas. É o Mpla que tem estado a trabalhar contra si próprio. Tem de ser feita a reflexão que o presidente do Mpla recomendou recentemente para que os erros sejam claramente identificados e possam ser rectificados, a bem dos cidadãos e da democracia nascente. É isso que se espera de um partido político que se afirma grandioso, como o Mpla.
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SA – Partindo do princípio que as organizações sindicais e estudantis sabem que o governo não quererá correr o risco de adoptar políticas pouco populares, 2008 vai ser o ano de todas as greves e reivindicações?
PC
– Obviamente que corremos agora esse risco. E isso não é bom, nem para a democracia nascente, nem para a estabilidade política que se pretende duradoira, nem mesmo para a estabilidade económica que aqui devo saudar.Também temos de reconhecer que não será fácil neste momento um pacto político entre as principais forças políticas, pois seria este pacto a prevenir sérios conflitos laborais e greves estudantis. Não podemos adivinhar que isso venha a ocorrer, mas penso ter-se já começado a trabalhar no sentido de prevenir algumas dessas convulsões, apesar de haver sectores (como o do ensino superior, por exemplo) onde esse trabalho ainda não começou e, se não houver cuidado, vai até agir-se em sentido oposto."
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