quinta-feira, outubro 20

Sentimento de Impotência

Não tenho ilusões nem acho que vou mudar o mundo. Mantenho a humildade que me permite reconhecer que não estou a ajudar ninguém.
11.Set.2005 (31º dia de viagem)
Beira, Moçambique

Sou apenas uma aluna, estou a reaprender a viver em África e a relembrar como era dantes. Não a África dos carros topos de gama, das motas de água, das roupas de marca, das discotecas e das passagens de modelo na praia. Não a África da indiferença, da prepotência, da corrupção e arrogância. Aqui, no meio do nada e deste povo que não tem nada, sinto-me a regressar ás raízes, àquilo que realmente sou e que quero ser.

Sinto agora que fui injusta…Angola não é a nossa Angola. Não é a Angola que conheci ultimamente. Angola não é Luanda em Dezembro, nem a fofoca de uma minoria de angolanos desocupados. Angola não é sair à noite e ir ao Luanda dançar umas tarrachinhas, Angola não é o cinismo e a futilidade. Angola não é show-off.

Angola são roupas rasgadas, é um povo que sofre como este, que passa fome, que não tem água, que tem crianças órfãs pela guerra e pela SIDA, que tem doenças e não tem como as curar… Angola é um povo como este, que sorri na adversidade e que canta no desespero.

Desculpem… já não sei o que é Angola nem o que é ser angolano.

Ser angolano devia ser ter consciência que fechar os olhos ao que se passa à nossa volta, não resolve nada, que andar com o ar condicionado ligado e vidros fechados não vai fazer com que deixe de cheirar a lixo e que fingir que os meninos de rua não existem, não vai fazer com que desapareçam.

Não sei o que é ser angolano hoje em dia, houve uma altura em que ser angolano era lutar para que o povo tivesse uma vida melhor… Não quero voltar a ser injusta, mas parece-me que hoje em dia isso passou a ser o menos importante. Aqui em Moçambique é inevitável pensar na minha terra e em como as coisas poderiam ser diferentes se estivéssemos menos preocupados no que parecemos e mais preocupados com o que realmente somos. E com aquilo que o nosso país vai ser se continuarmos a fechar os olhos!
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Sara Carmo
AKA - Shah

5 comentários:

MN disse...

Texto original, bem conseguido, inteligentemente escrito, e que resulta de um "sentimento de impotência".
Excerto de um diário de viagem transformado num verdadeiro "desabafo angolano".

Parabéns

By Irina Gamboa disse...

O ser humano tem a capacidade de tornar belo e real tudo aquilo que quer..desde palavras, a ideias..etc...Mas nos dias de hoje infelizmente muito se diz e pouco se faz! Palavras,Debates...isso ja estamos todos fartos de ler...ver...ouvir...
Mas por um outro lado todos nos agimos inconscientemente...cada um procura lutar para o seu bem estar presente e futuro ou seja as pessoas acabam por se acomodar a sistemas que ja vigoram a muito tempo. Lei da sobrevivencia,cada um por si deus por todos!

Silvio Vasconcellos disse...

Interessante relato para quem lê sua mesma língua do outro lado do Atlântico.
Tuas dúvidas, teus dilemas são os mesmos na América Latina. A diferença está na idade de nossos países.
O Brasil e Angola têm que se aproximar para corrigir erros históricos de nossos colonizadores europeus.

Anónimo disse...

Até quando "... As crianças nascerão velhas ao abraçarem sonhos impossíveis..."? Haja cérebro de avestruz e estômago de pedra para olhar sem ver.

lombmhula disse...

O pior disso tudo è que "nos" a juventude continuamos somente a olhar, e a espera que a resposta a esses problemas virao do ceu. Um paìs com a juventude morta è um paìs destinado a morrer. Depois so nos restarà lamentos como estes que estamos abituados a verificar.