segunda-feira, março 20

Tentativa de extorsão no Aeroporto Internacional de Luanda (4 de Fevereiro)

Preparávamo-nos para embarcar, vivíamos aquela agitação própria de quem está de malas feitas no Aeroporto de Luanda, a nostalgia pairava no ar… Quem vai já tem saudades da praia, do calor, da fruta, da família e dos amigos que ficam e já só pensa no trabalho e aulas que tem que recuperar e também nas contas que vai encontrar no correio quando chegar ao destino.

Tanto stress: o check in que nunca abre a horas, os espertos que furam as filas, os agentes que nos reviram a mala a procura de sabe-se lá o quê, e depois riscam-nas com giz branco. A luta com o excesso de bagagem e o medo de saber se teremos ou não lugar, porque muitas vezes mesmo com OK no bilhete ficamos em terra pois um qualquer com influência nos passou a frente à última hora! Os documentos em dia e devidamente preenchidos, os talões de recenseamento militar… e outros tantos papéis que nos pedem, enfim…

Já tinha passado o balcão de imigração e dirigia-me para o segundo posto de segurança (mais uma revista), lá finalmente usa-se tecnologia. Temos alguns agentes, um que fica a controlar o monitor da máquina Raio X ou Infravermelho - desculpem a minha ignorância - e outro que fica no detector de metais. (este posto é de vital importância porque faz a triagem dos objectos perigosos a bordo)

Aí, encontro uma amiga a ser “penteada” por um agente! Ela tinha toda pinta de turista que veio pela primeira vez a Angola. (preza fácil) Era caucasiana, de pele muito clara, com sardas e sotaque de gente de fora! Nada fazia prever ao agente que se tratava de uma nativa com calos nesse tipo de situações que nos querem extorquir.

Apercebo-me que ela levava dentro da sua bagagem de mão alguns cosméticos para consumo próprio, de origem brasileira, que em Angola havia em abundância mas que no país de destino ela não encontrava. Levava a provisão suficiente para aguentar até a próxima vinda a Angola. (Nunca se sabe ao certo quando voltamos à terra mãe. Passagens muito caras e compromissos laborais são sempre os maiores impedimentos.)

O dito agente queria que ela pagasse direitos alfandegários sobre os produtos que ela levava consigo ou então teria de os deixar todos em terra! Aproveitou ainda para lhe “explicar” que cada passageiro podia apenas levar na sua bagagem um perfume, um desodorizante, um creme …, ou seja, não podia levar nada em dobro, como era o seu caso. Explicação esta que fez soltar uma gargalhada à rapariga…

Já estavam ali em debate, pelo menos uns 10 min., quando eu cheguei e apercebi-me do pequeno sururu.

Ela tinha traquejo mas desconhecia, ou não se lembrava, que nunca se paga direitos aduaneiros de um produto a saída de um país! Esse produto que ela consumia já tinha sofrido taxas alfandegárias quando entrou no país, exportado do Brasil, por esse motivo era ilegal o que o agente pedia.

Estava um pouco assustada, já se embarcava e ela ainda ali com aqueles problemas de última hora. O saco dela retido pelo agente que a todo o custo exigia uma quantia pela qual não iria passar recibo nenhum.

Com o seu traquejo e atitude firme, lá conseguiu depois de muito paleio prosseguir normalmente a sua viagem. Sem pagar nada daquilo que ele exigia, porque entretanto o agente deu conta que dali não sacava nada.
Final feliz para ela! Mas pergunto-me:
- Quantos já não caíram nessa?

Espero que os leitores que se desloquem a Angola, e se virem numa situação idêntica, se lembrem que os únicos direitos aduaneiros que se pagam são cobrados à entrada do país e nunca à saída.

“Em parte consigo entender um pouco o oportunismo do agente em causa! Ele recebe um salário mísero que não chega a meio do Mês e vê os filhos dos chefes a passarem por ele, todos bem vestidos e cheios de divisas nos bolsos. É a oportunidade que ele encontra para conseguir facturar mais algum!

Enquanto as pessoas não receberem salários dignos, em Angola continuará a haver muita gente a extorquir e corromper-se!

Infelizmente em Angola também há o reverso! Gente rica a extorquir e a corromper-se por ganância excessiva!!!”

10 comentários:

Piti disse...

Não será o "reverso", a "gente rica" e os quadros do aparelho do estado "a extorquir e a corromper-se por ganância excessiva" que provoca e incentiva o à vontade dos funcionários menores a sacarem a gasosa? É que mesmo com todas as mordomias de que desfrutam, é precisa também uma corrupção desenfreada para conseguirem acumular a enorme riqueza material que ostentam...

Anónimo disse...

Ummmm.... penso que não é bem assim tão clara essa situação de não se pagar direitos à saída de um país. Tecnicamente, existem regras. Por examplo, se eu aparecer com uma mala com 10 artigos todos iguais bem fechados, será que isso não pode ser considerado contrabando? Pondo o aspecto tecnico de lado, duvido que em Angola existam regras claras em relação à saida de mercadorias do país... a nã ser que seja petroleo e diamantes pois nesse caso o MPLA e o J.E.dos Santos é que mandam.

Salucombo_Jr. disse...

Houve um police que tentou pentear-me o cartão multi-banco, confundindo com o cartão multi-caixa. argumentou ele que era ilegal deixar o pais com o cartão.
Não consigo terminar o comentario porque até hoje estou pasmado.

Anónimo disse...

"vê os filhos dos chefes a passarem por ele, todos bem vestidos e cheios de divisas nos bolsos".
O que eu não percebo, é pq q n tentam "extorquir" os filhos dos chefes. Pela descrição, ela não era de certeza um deles.

Anónimo disse...

Pk os filhos dos chefes vão escoltados pelos próprios até quase a placa. Muitas das vezes nem necessitam dos documentos k a gente necessita. Já vi tantas vezes essa situação... Ai de quem tentar sacar algo ao filho do chefe...

zohguy_saiyajin disse...

Impressionante este relato! Me fez lembrar as cenas de um filme do Christopher Walken, Cães de Guerra (Dogs of War) de 1981.
Infelizmente também existe corrupção das autoridades em outros países, como por exemplo no Brasil.
A situação aqui não é muito diferente, especialmente nas esferas mais altas do poder.

Mankakoso disse...

Môs kambas! Tão a vere as neçeçidades? Pois antão! Todus têm us seus própriu quê e quê! Us grande rouba us pikeno. Os pikenu vão fiká só apanhá do ar? Nada! Fikam também a penteá us ôtru. É ançim a tala lei dus podéres!
Bazei daki bwé podre kom eça prukaria ke só anda dáre má fama na noça caza comum...
Mas é a rêalidade kistamu ku ele, vamus fazê más kumo antão?
Abaixu a kurrupução!!!!

Anónimo disse...

Que tristeza....
Sou angolana, mas feliz ou infelizmente saí do país ainda pequena e nunca mais voltei, mas sinto vergonha de ver tamanha corrupção, embora até entenda os motivos do dito "agente", arraia miúda nesse meio, em que os poderosos tudo conseguem. Agora pergunto: será que o povo (os povos do mundo inteiro) ainda não se aperceberam da força que têm, se quiserem claro...é que falar, falar, falar e nada fazer é ser conivente com o que está mal. O povo se quizesse tudo mudaria...acredito eu, uma simples angolana (que espera um dia voltar).

João Dias de Carvalho disse...

Anotei a dica… concordo com a necessidade de salários dignos. A receita é válida para a nação Lusa também.

JAC
Blog - "O meu Computador"
(Tecnologias de Informação e Comunicações)
http://o-meu-computador.blogspot.com/

Anónimo disse...

Para a angolana que tenciona um dia voltar:

Desculpa la moça, mas tu se te dizes angolana podes incluir-te nesse "será que o povo (os povos do mundo inteiro) ainda não se aperceberam da força que têm, se quiserem claro...é que falar, falar, falar e nada fazer é ser conivente com o que está mal", sim, ou vais ficar a espera q a OUTRA PARTE DO POVO mude e crie as condiçoes para vocemesse se sentir em casa? Todos temos obrigaçao e dever de voltar e fazer mais do que discutir em blogs. Fico e com pena que digas algo do genero: "feliz ou infelizmente saí do país ainda pequena e nunca mais voltei", mostra um pouco do apreço e amor que guardaste pela tua terra-mae!

Esse assunto da corrupçao como todos os outros tem mto que se lhe diga, mas n podemos simplesmente atirar a batata quente de mao em mao e passar a vida a apontar dedos. VAMOS AGIR, proponho para começar que cada um de nos quando la va de ferias, tenha pelo menos o bom senso de (sem artigos de valor consigo pq tb n vale a pena procurar) ir conhecer os 6/7 de Luanda ocupados pelos mucekes, conhecer as pessoas, conhecer as suas verdadeiras preocupaçoes e necessidades para alem das EVIDENTES. Quantos amigos temos nesses bairros? N falo dos empregados/cozinheiros/motoristas de nossas casas, mas de AMIGOS que convidemos a almoçar e a discutir com os nossos pais? COMECEMOS POR AI... conhecer-nos melhor!

Paz e Luz a todos e abaixo a corrupçao... e q o Ze Du desista das eleiçoes para q n volte a ganhar

Luaty