terça-feira, junho 20

A Invasão Chinesa de Angola

LUANDA ADORA O DINHEIRO CHINÊS E PEQUIM DELIRA COM O PETRÓLEO ANGOLANO.

“É um bebé enorme, de pele escura, que brinca com os balões coloridos acima dos olhos rasgados, no berçário da casa de Li Yun, 25 anos, e de Sónia, 26. Em Janeiro último, da união entre o chinês e a angolana, nasceu em Luanda de parto natural, com 4 Kg, Li Ya Xin, ou Nova Ásia, o primogénito do casal, que já faz planos para um segundo filho. Vai chamar-se Nova África.

Li Yun aterrou em Angola há quatro anos fugindo a «enorme concorrência» no seu país. Sónia nunca saiu de Luanda, procurando uma carreira após o curso médio em contabilidade. (…) Da relação entre colegas de empresa, nasceu a amizade e depois o amor. Casaram-se em 2003 e instalaram-se em Viana: «Ele é muito diferente dos homens de cá – carinhoso, amigo, faz tudo pela família, batalha muito mas também não é rapaz de ilusão.»

(…) «O ambiente é difícil», diz o chinês num português acima da média. «A maioria das estruturas falha e os papéis são complicados.» Soma-se o choque cultural: «A música alta na vizinhança, a comida, as dores de cabaça do trânsito, o lixo…»
(…) Quando fez serviço militar, Li Yun habituou-se a comer para encher e agora até o funge marcha. Já perdeu a conta aos telemóveis que lhe roubaram nos engarrafamentos, quando os bandidos olham como janelas de oportunidade para os vidros abertos do jipe, que substituem sem eficácia a falta de ar condicionado. E já teve uma pistola apontada a cabeça.
(…) O registo do menino angolano de nome chinês em Luanda: «Vai custar muita gasosa», prevê o pai, conhecedor de um dos motores principais da administração local: a corrupção, num dos dez estados menos transparentes do Mundo.

EM OBRAS O EMPRESTIMO DE PEQUIM PREVÊ QUE 70% DAS EMPREITADAS SEJAM ADJUDICADAS ÀS SUAS EMPRESAS.

Apesar do aparente segredo sobre o número de chineses em Angola, é possível que sejam 30 mil a que se somarão mais uns 10 mil até ao fim do ano, aproximando-se do total de 47 mil portugueses.

(…) Os asiáticos acabam por ser a força de trabalho mais visível, abrindo um caminho paralelo ao tráfego insano, numa operação em grande escala, com máquinas laranja operadas pelos amarelos de chapéus de bico, movimentado a terra africana, vermelha, debaixo da curiosidade de umas centenas de negros unindo a linha de ferro Luanda – Malanje (…) até Setembro, a obra deverá restabelecer a ligação ferroviária entre Luanda e Viana. Daqui a um ano, os comboios chegarão a Malanje, a 420 km da capital.

Logo após Viana, há mais terraplanagens e mais chineses de chapéus em bico, protegidos pelas forças armadas angolanas, no centro logístico que distribui todo o equipamento destinado as empreitadas em Angola: uma parada de centenas de retroescavadoras, empilhadoras, camiões (e muito aço, ferro e cimento), perfilados numa área de largos hectares, roubando espaço às lavras de mandioca, já longe da selvajaria luandense.
Mais à frente ainda, preparam-se as fundações do novo aeroporto. A Sul também, se abre a todo o vapor, ao longo de 1300 km, a estratégica linha de ferro entre Benguela e Luau (na fronteira com o Congo), num investimento de 300 milhões de dólares, a sair do crédito que o chinês Exibank abriu ao estado angolano num total de 2 mil milhões de dólares, a troco de 30 mil barris de petróleo por dia e a um juro irrisório. Escolas, hospitais, estradas, abastecimento de água e energia, 200 mil novas habitações – a reabilitação das principais infra-estruturas estão a sair daquele empréstimo, que promete uma subcontratação de 70% de empresas chinesas na totalidade das empreitadas.

(…) Há um ano a china ocupava o quarto lugar nas importações de Angola, uma posição que ameaçará, em 2006 a liderança portuguesa. Angola era por seu lado o segundo maior mercado chinês em África e, a seguir à Arábia Saudita, segundo maior fornecedor de petróleo a Pequim – 25% da sua produção segue para o antigo Império do Meio.

A GRANDE INVASÃO
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Desde 2002, 10 mil empresários chineses visitaram Angola, revelou à Lusa Huang Zequan, docente de Estudos Africanos na Universidade de Pequim e consultor de empresas que apostam neste mercado. «Uma vez disse num artigo que mesmo plantando couves, se tem lucro em Angola. Recebi logo cinco telefonemas.»

O crédito do Exibank mostra-se em cada canto do país. Na fachada envidraçada do novo centro de convenções, em Talatona, nas obras da estrada entre Lobito e a Capital, ou em vários edifícios que nascem no centro de Luanda, com operários chineses (…)

AMIZADE SINO-AFRICANA
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Angola e China iniciaram relações diplomáticas no início dos anos oitenta. Na altura, ambos os países sabiam bem a sua posição no contexto Guerra-Fria. Entretanto, abriram-se ao mercado e possuem economias galopantes. E, da mesma forma que Luanda precisa de dinheiro e de recuperar as suas infra-estruturas, Pequim está ávida de petróleo para manter os seus níveis de desenvolvimento.

Da fome e vontade de comer, nasceu o entendimento. E o crédito Estado a Estado de mil milhões de dólares poderá em breve ser duplicado.

«A China tem uma politica pró-activa em África baseada nos recursos energéticos» (…) «Esta nova projecção de poder tem uma lógica de competição com a influencia americana e europeia.»

(…) Enquanto se fechavam estes negócios da China, o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi desesperando em Luanda, a tentar um acordo com o Governo de José Eduardo dos Santos que tarda em ser fechado. «O FMI não tem mais nada a fazer aqui», adianta Alves da Rocha, economista da Universidade Católica de Angola. «Os seus enviados confessaram terem aprendido como se usa a arma do petróleo para fazer realpolitk.»

As condições que o FMI colocava em matéria de política macroeconómica e as exigências das potências ocidentais em matéria de boa governação e direitos humanos, não as pedem os chineses. Os chineses fazem negócios e não perguntas.

(…) Por outro lado, nota ainda o especialista do IEEI, os interesses de Pequim em África não se resumem ao petróleo, mas também à segurança alimentar, adquirindo terras férteis em África. «O principal objectivo na sua estratégia», conclui Santos Neves, «é a estabilização social interna.».
O vice-primeiro-ministro de Pequim, Huang Ju, já anunciou o desejo de triplicar o volume comercial e de duplicar o investimento directo neste continente, que a intenção de Stanley Ho de abrir o Banco Angolano de Negócios e Comércio, destinado a privados chineses, só vem reforçar.

OS ENGENHEIROS CHINESES LEVAM 100 EUROS MENSAIS, CONTRA 600 EUROS QUE AS EMPRESAS FRANCESAS PAGAM AOS AFRICANOS.

(…) Passa-se a palavra e esta diz que todos os chineses em Luanda são cadastrados, que se vão multiplicar por milhões e tirar postos de trabalho à população local (…) «Os engenheiros chineses trabalham em África por cem euros mensais, contra 600 euros que as empresas francesas pagam aos mestres de obra africanos»”

Texto de: Henrique Botequilla
In: VISÃO Nº 683 de 2006

6 comentários:

Pelusa disse...

Só digo isto: Se for para o progresso de Angola e sem opressão do povo...que venham de lá os chinocas!!
Quero é ver o meu povo feliz e evoluido...piscando com um olho o progresso mas com o outro as suas tradições e costumes.
Um abraço

José Manuel Dias disse...

Obg pela informação. Uma análise interessante. Somos cada vez mais uma aldeia global.
Um abraço

Erasmo disse...

Como é obvio, os chineses, tal como outros governos estrangeiros, nao estão em Angola para melhorar Angola, mas apenas para servir os seus interesses, nomeadamente os energéticos. Mas mais vale os chineses, que os franceses ou os americanos, países com provas dadas na desestabilização interna dos países para onde vão, por forma a aumentar a sua fatia nos lucros petrolíferos. Enfim... é o mundo que temos.

K. disse...

Tou completamente de acordo com o "erasmo", acho q o mundo precisa de um equilibriu e dps da queda da Uniao Sovietica e hegemonia americana tem q haver outra forca estabilizadora e de equilibriu em termos de poder, os Chineses tao a comecar a ocupar esse lugar e a dar conta do recado como vimos no caso do emprestimo dado por eles q foi uma opcao para alem do FMI e clube de Paris. Assim pelo menos ha menos excessos da parte de paises poderoses sem oposicao

Anónimo disse...

Os chineses que estão em Angolas na construção civil~estão todos por vontade própria? Não há por aí alguns a fazer trabalhos forçados?

Anónimo disse...

lulu disse:
a nossa angola já sofreu demais, com mortes milhares, guerras sem fim e anos de devastação.abracemos pois quem nos quer realmente ajudar- e o contra balanço desta desgraça. é efectivamente a china! são eles, os melhores em todos os aspectos, e em todas as areas da econocia, saude, ciencia , tecnologia ,para nos apoioar sem fomentar mais a guerra em angola.

viva a china e os nossos parceiros chineses, pois com estes nós vamos efectivamente longe, sem guerras e a caminho do desenvolvimento. o nosso presidente e os nossos governantes nos devem a nós povo angolano esta paz efectiva e para sempre. viva angola, viva josé eduardo dos santos!