domingo, junho 26

A Minha Aventura

Este meu desabafo serve para alertar a minha geração dos tremendos desafios que temos pela frente para ajudar a reconstruir uma Angola melhor!
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De missão cumprida no exterior, com uma licenciatura debaixo do braço, e apesar de recém chegada, não posso deixar de manifestar a minha insatisfação pela anarquia com que coabitamos na nossa bela cidade de Luanda!
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Durante os anos em que vivi no exterior, anos de nostalgia e de saudade, sempre tive o privilégio de poder regressar a Luanda para férias com a família, e se bem me recordo, nunca encontrei Luanda como hoje, suja, degradada, sem princípios, sem leis, sem civismo e sobretudo sem piedade de quem a habita.
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Recebi as boas vindas à terra logo à chegada, quando inocentemente julguei ser possível levantar bagagem não acompanhada na Alfândega do Aeroporto 4 de Fevereiro sem qualquer entrave. Enganei-me! Tal foi o engano que só o pude fazer 10 dias após a minha chegada. Foi uma aventura no qual me meti sem saber que, de facto, estava a embarcar numa longa viagem com bastante turbulência. Fui atendida sete horas após lá chegar sem saber que poderia ter sido atendida à chegada por apenas 200 kwanzas. Este episódio far-me-ia escrever bastante mais, mas deixo às autoridades responsáveis por tal estabelecimento ponderarem sobre o que ali se passa, pois estou em crer que ninguém lá dentro está inteirado da falta de profissionalismo, de asseio, de honestidade, e até de responsabilidade dos seus trabalhadores.
A menina do balcão arrastava-se pela sala de atendimento aos clientes da alfândega para carimbar um único papel, o que lhe roubava logo 15 minutos do seu precioso tempo. Após tanto trabalho, sentava-se na sua graciosa secretária e coçava a cabeça até adormecer em cima do teclado do computador talvez pensando que de uma almofada se tratasse, pois durante os 10 dias que lá estive nunca a vi sequer tocar numa única tecla.
Todos os departamentos da Alfândega estavam simpaticamente decorados, com uma caixinha de «boas festas» e com um trabalhador de «mão estendida» a chantagear-me por 200 ou 300 kwanzas - ou não quisesse eu tratar do meu pendente o mais rápido possível. E assim foi, durante os meus primeiros 10 dias de glória, lá tive que «largar» muitos 200 kwanzas a fim de reaver os meus pertences. Até que, por fim, lá tiveram piedade de mim, e me deixaram trepar armazém acima à procura da minha bagagem, talvez por ter sido dia 24 de Dezembro em que estavam todos de ânimo mais generoso. Realmente voltei para casa aliviada, com a bagagem em mão de facto, embora com menos 200 Usd no bolso de tantas «taxas extra alfandegárias» que tive de pagar.
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Durante estes 10 dias de regresso à terra, pouco ou nada pude apreciar ao meu redor, tal era a ânsia de tirar as minhas coisas da alfândega escapando-me assim muita coisa à vista. Com mais calma pude apreciar com o que iria ter de conviver durante o resto da minha vida, ou não fosse eu angolana ferrenha!
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A segunda aventura, é sem dúvida, conduzir em Luanda!!!
É de «gritos»... Prioridade, alguém conhece? Passadeira? Semáforos? Será que um cidadão a quem foi concedido uma carta de condução, sabe-se lá por quantos “200Kwanzas”, não respeita nunca, nenhuma regra básica de trânsito? Hei-de experimentar pintar o meu carro, embora não seja nenhuma “Hiace”, de azul e branco, a fim de impôr respeito.
Os ditos «candongueiros» são a única entidade, embora não oficial, a ser respeitada nesta cidade. Basta uma volta à nossa pequena metrópole para perceber que ninguém sabe dos seus devidos lugares: são carros nos passeios, piões nas estradas, supermercados ambulantes, «buzinas» constantes, tudo fora do lugar. Também eu me sinto fora do lugar, sem saber por onde andar, sem saber por onde conduzir, sem saber por onde passear a pé. Trata-se de uma «missão impossível»! Circular em Luanda é uma verdadeira aventura, masoquista talvez, mas necessária e indispensável.
E quando chove? Parece um breve «Tsunami» passando por cima de nós, que deteriora a situação crítica dos buracos na cidade, que leva alcatrão, trás mais poeira à mistura, suja-nos a roupa, que tanto custa a muitos lavar pela falta constante de água corrente, sem pedir licença. Não esquecendo, é claro, da questão da falta de esgotos na cidade, que tanta falta nos faz quando chove, consequentemente aglomerando inúmeras águas paradas, cidade a fora, trazendo à baila epidemias. Não temos alternativa se não aceitar a forma atroz que nos é imposta de viver!
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É desesperante a questão do lixo na cidade. Será possível não haver um único responsável que tenha dó, quanto mais não seja dele próprio, que com o lixo co-habita de forma indiferente, que se preocupe com esta vergonha? É vergonhoso sair à rua. Agora virou moda não haver caixotes de lixo! É “cool”!!! Quantos mais sacos e saquinhos espalhados, mais decorada fica a cidade. Tantos gastos se fazem em compras de luxo pelos nossos mais ilustres governantes, grandes carros de centenas de milhares de dólares, comprados única e exclusivamente por questões de segurança, casas de luxo, viagens dispendiosas, e tudo quanto se possa imaginar. Chamo a isto a “prisão” dos governantes. Prisão esta que os deixa calmamente relaxados dentro do seu fictício mundo de luxo, bem distantes do nosso «lixo de luxo»!
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O tema civismo é uma graça! Palavra bastante mencionada por todos os meios de comunicação mas nunca praticada. Já lá foi tempo em que se pôde, com resultados visíveis, educar um povo. Hoje em Angola tem sido difícil, não sei se por falta de campanhas educacionais o suficiente bem delineadas e direccionadas aos alvos certos ou se por mero esquecimento do Governo. O cenário é pavoroso: cidadãos sem um mínimo de senso comum a atirarem deliberadamente lixo pela janela fora, indivíduos a urinarem em plena via pública, obras públicas, poucas que sejam, a serem veementemente destruídas sem dó nem piedade. A questão do civismo é grave. Vivemos numa sociedade onde se deixa gente morrer por faltade pagamento à vista nos hospitais ou mesmo clínicas privadas. Acompanhei alguns casos de perto onde por não haver dinheiro à vista se deixou morrer um ser humano. Entendo, ou pelo menos tento entender, a falta de condições em que se trabalha, mas tem de haver culpados!
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Vivi a minha terceira aventura quando fui assaltada em plena via pública à frente de polícias que só foram atrás do “artista” quando prometi recompensá-los com 50 USD. Achei que pudesse tratar do meu bilhete de identidade também de forma normal. Fui levada por uma amiga a uma repartição pública, onde fui atendida por um indivíduo que por mais alguns, muitos, 200 kwanzas, me deixou gentilmente entrar para que pudesse dar entrada dos papéis necessários. Foi então que tive de dar a volta ao edifício e me deparei com uma casa de banho transformada em «guichet».
Para minha surpresa, aqui em Angola não se identificam as pessoas pela altura, cor dos olhos, ou cor do cabelo. Somos identificados pela cor da pele como se de animais se tratasse, porque assim como se identificam os cães pela raça, nós angolanos também o fazemos. Julguei que a fotografia fosse o suficiente, sempre pensei que fosse única e exclusivamente angolana e não”mista”, “branca” ou “negra”! Devemos ser o único país do mundo onde a raça é o item mais importante para a identificação dos seus cidadãos!
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Lembro-me de pequena ir dar uma volta à Ilha de Luanda todos os fins-de-semana com os meus pais. Hoje vou, mas bastante contrariada com medo, quiçá, até de morrer, não me vá saltar um pedregulho em cima. Já tentei entender o porquê dos pedregulhos monstruosos no meio da Ilha de Luanda. Será mera decoração? Não creio. Bem «matutei» desde que cá estou e chego à conclusão que os «monstrinhos» servem única e exclusivamente para proteger os postes de luz, que pouco ou nada iluminam, pois não funcionam. Reparem que por de trás de cada poste existe um pedregulho engraçado aprotegê-lo. Sem contar com os acidentes típicos de todos os fins-de-semana precisamente por causa dos pedregulhos. Vale mais proteger um poste de luz que a vida de um ser humano?!! Não seria mais fácil e menos trabalhoso colocar separadores centrais para segurança de todos? Lá vamos nós, luandenses, dar a volta dos tristes aos domingos e voltamos todos para casa bem mais estressados de tantos «ziguezagues». Chamo-lhe «Ilha de Luanda Dakar»!

Outra inquietação são os passeios destruídos, haverá falta de cimento? Ou é para marcar a diferença? Esqueço-me sempre que somos «cool», diferentes, ousados.
É inadmissível, que tudo seja destruído e pouco seja construído, que não haja ordem, que não haja educação, que não haja humanidade, piedade, companheirismo, solidariedade. Vivemos no mundo da fantasia. Todos por um e nenhum por todos!
Não culpo de forma alguma a menina da alfândega do aeroporto, o «artista» que me assaltou, ou o pobre homem que me cobrou taxas extra para tratar do bilhete de identidade. Se pensarmos um bocadinho, todos os luandensses lutam pela sobrevivência, roubando, cobrando extra pelos serviços públicos, vendendo na rua.
Todos sobrevivem num país onde a taxa de desemprego ronda os 70%. O mais hilariante é «muitos» compararem o nosso índice de crescimento de 10% com as taxas de crescimento dos países desenvolvidos que rondam os 2 ou 3% como se estivéssemos todos a viajar num «TGV» sem terem noção que estamos a viajar ainda num comboio a vapor. Num comboio a vapor com lenha exclusiva do nosso off shore. Voltei ao país cujo maior emprego é o desemprego!
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Esta é a realidade com a qual nos confrontamos, um desafio que eu e todos os que chegaram como eu temos pela frente. Tudo isto me leva a reflectir. Será que a minha geração terá de se conformar com este estado de coisas? Não creio. Nós que estamos agora a regressar ao país temos que levar isto como um desafio, não nos podemos resignar. É a nossa herança, não temos medo e vamos enfrentá-la desde que nos dêem oportunidade para o fazer. Pertenço à família da situação mas não me considero sitiada, não me falta nada mas sinto necessidade de quase tudo. Não sou contra o sistema mas clamo por um melhor sistema.
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Por:
INDIRA PATRÍCIO
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Já dizia José Ingenieros - " o destino dos povos floresce nas mãos dos jovens que sabem sentir a ansiedade de bens vindouros"

O pessimista senta-se e lamenta-se. O optimista, levanta-se e age!

3 comentários:

MN disse...

É com orgulho que coloco este post neste Blog... por várias razões: porque está escrito de uma forma inteligente e clara e porque demonstra e representa a coragem de criticar, apelando à reflexão sobre o que está mal no nosso país, objectivo principal deste Blog!
Por outro lado, é também com orgulho que coloco o primeiro post de UMA ANGOLANA...mulher que contraria, a inércia que tenho verificado por parte de outras a quem tenho apelado para darem o seu contributo com um Post para este Blog! Espero que a Indira sirva de inspiração para todas voçês angolanas e que a vossa participação neste Blog aumente!Gostava que contrariassem a ideia de que as mulheres têm pouca voz na nossa sociedade... ideia que é incutida pela nossa cultura e que cabe apenas a voçês mulheres, que tanto se debateram pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, contrariar! Principalmente aquelas que tiveram e têm a possibilidade de ao saírem do país contactarem com a cultura ocidental, na qual as mulheres mais do que domésticas ou "Barbies" que servem apenas para passear a sua sensualidade, tentam na sua maioria utilizar a sua inteligência e capacidade crítica para de alguma forma (por muito pequena que seja), contribuir para a mudança de atitudes na sociedade!
Sem querer ferir sensibilidades ou egos, despeço-me e aguardo...

Cym disse...

Excelente bilhete, muito obrigado pela descrição da realidade actual em Luanda.

Se bem que seja desanimador ver os angolanos serem governados por um dos regimes mais corruptos do mundo (como explicar de outra forma que apesar de tanto petróleo e diamantes, a situação esteja tão mà 3 anos depois da guerra?), existem pessoas sensatas que não aceitam esta situação e que querem outra coisa.

Espero que a nova geração tenha a energia e a força de vontade de superar as dificuldades actuais e realmente construir uma sociedade mais justa e humana.

Visolela disse...

As mulheres Angolanas só podem sentir-se orgulhosas de terem como compatriota a Indira Patricio. Bem haja,

Visolela Amorim