terça-feira, fevereiro 21

As crianças são o amanhã!

As crianças são o amanhã… são o futuro e são muitas outras coisas que nós, os adultos, dizemos porque fica bem. Mas as crianças que são isso tudo são no melhor dos casos as nossas. Os nossos filhos, irmãos, sobrinhos, primos, filhos dos amigos… aqueles seres pequeninos por quem, por um motivo ou outro, nutrimos carinho. Ficam os outros. Não é minha intenção fazer, neste blog, uma homenagem (muito sentida, mas também já muito vista) ao famoso (e infelizmente muito frequente) “menino de rua”. Não que não ache que esses meninos e meninas não o mereçam. Antes pelo contrário. Queria pôr-te a pensar… Fazer um pequeno exercício de “troca de papéis”

Ponto 1.

Volta atrás. Lembra-te de como eras quando tinhas… nove anos.
Lembra-te da tua cidade, da tua casa, dos seus cheiros e sabores. Lembra-te dos teus pais, tios e avós. Lembra-te das brincadeiras com os primos e os vizinhos. Lembra-te de tomar banho de chuva, de fazer tudo aquilo que os kotas não queriam que fizesses. Ser criança é mesmo assim! Lembra-te da tua escola, da professora, das “tarefas”. Lembra-te dos fins-de-semana, da praia.
Agora lembra-te dos medos que tinhas na altura. Da régua se não soubesses a tabuada, que te apanhassem a beber água da torneira, do escuro e do papão… Podes até nem te lembrar disso mas quase de certeza que tinhas medo de perder os teus pais. Todas as crianças têm!

Agora imagina que todos os teus piores receios se tornavam realidade. Perdias os teus pais ou até toda a tua família, aliás, assistias às suas mortes. Vias a tua casa ser destruída por obuses e todos os teus brinquedos cheios de sangue de pessoas que amas. A tua escola também tinha sido destruída e a tua professora desapareceu, juntamente com a maior parte dos teus amiguinhos. A água da torneira que antes não te deixavam beber era agora quase uma raridade e nem sequer havia luz porque os postes tinham sido destruídos também… E tu… que sempre tiveste medo do escuro… nem sequer tinhas a tua mãe para te dar colo. Claro que tinhas fome, mas não havia comida. Aliás, não havia nada. Havia a roupa que tinhas no corpo e a destruição que tinhas na mente.

Se fores rapaz, lê a alínea a), se fores rapariga lê a b)

a) Como já sabes andar e ainda te restam duas mãos, entregam-te uma arma. Não era bem o que tu querias mas é a única forma de conseguires algo para matar a fome e alguma protecção. Não tinhas outra escolha. A tua recruta é feita in vivo e a cores. Ou melhor, a cor. O vermelho do sangue! Logo tu que nunca foste de brincar às guerras. Mas é mesmo assim, há que matar para não ser morto. É dura a vida. Por muitas vezes quase que morres e chegas mesmo a desejar que isso aconteça, no entanto sobrevives. Sabes e sentes que já não és o mesmo menino, que agora te acompanham o espectro de todos os corpos aos quais retiraste vida. Baixinho, rezas para que os Deuses te perdoem e entendam que só fizeste o que tinhas de fazer. Um dia consegues fugir e chegar a um campo de refugiados. Tu, os “vícios” que adquiriste para conseguir sobreviver neste “mundo cão”, o teu sofrimento e os teus traumas. (Passa para o ponto 2)

b) O mais provável é seres violada vezes sem conta por vários homens. Se não morreres num desses episódios, vais-te arrastando. Tu e as outras crianças, mulheres e velhos que se arrastam, a si e às suas poucas bikuatas, naquilo que se pode considerar a versão moderna do exodus. Como só tens nove anos não corres o risco de engravidar mas podes sempre contrair SIDA. Como não tens acesso a medicamentos (nem a comida sequer…), adoeces facilmente. Mas vamos lá ser bonzinhos e considerar que não contraíste SIDA nem morres de nenhuma outra doença, de fome ou de exaustão. Consegues assim chegar a um campo de refugiados. Tu, os “vícios” que adquiriste para conseguir sobreviver neste “mundo cão”, o teu sofrimento e os teus traumas. (Passa para o ponto 2)

Ponto 2.
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No campo de refugiados
No campo de refugiados até que se vive melhor mas inevitavelmente as dificuldades continuam, não há comida para todos, não há medicamentos para todos, não há espaço, não há condições básicas. Não há nada que chegue para todos. Diz-se que há aviões e camiões a trazer comida mas tu não vês nada. A única coisa que vês é a fome. És muito jovem mas já aprendeste que a fome tem cara. Tem a tua cara e a cara dos que te rodeiam!!! Entretanto fizeste amigos, criança é mesmo assim, sociável por natureza. Os teus amigos são a única família que tens. São outras crianças órfãs como tu! Decidem ir para a cidade onde têm família. Onde cabe um cabem dois. Sempre foi esse o espírito da nossa gente por isso partes com eles.

Ponto 3.
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Na cidade
Finalmente chegaste! Todas as esperanças ganhas ao longo da caminhada da tua (pequena) vida, rapidamente se desvanecem. A tua terra está longe no espaço e longe na memória. Sentes que foi tudo há tanto tempo, muito aconteceu, já não sabes distinguir o que é verdade e o que é imaginação. Certamente que esta cidade grande não tem nada a ver com a tua pequena terra mas também, quem viu guerra vê tudo. Sentes-te um pequenino/a guerreiro/a. Alguns conseguiram encontrar família mas tu continuas sozinho. Sozinho não, com os outros meninos “refugiados de guerra”. Dentro da vossa vaga noção de organização social lá se vão desembaraçando e criam grupos relativamente bem organizados. Não há comida pois não? Não… E o que é que tu, que lês, fazias se tivesses fome, muita fome, nove anos, nenhuma educação, poucos valores, muita revolta, tristeza e alguma maldade? Roubavas, não é? Tu talvez sim…

Mas não, o meu “menino de rua”, o meu “refugiado” não rouba. Ainda é uma criança e apesar de lhe terem arrancado a inocência característica, tudo o que viu e ainda o fez ter ódio, tem noção, ainda que parca do bem e do mal. Então decide ir pedir esmola. No fundo sente que a sociedade tem obrigação de o “compensar” e de ser, em parte, responsável por ele/a.
A sociedade, no entanto, não acha nada disso. Nós, ainda que inconscientemente, achamos que “esse bando de marginais não são maka nossa, que o governo é que devia olhar por eles ou então mandá-los para os kimbos deles…”
“- Onde é que já se viu uma pessoa nem poder andar na rua sem ter esses aí a chatear… ah porque o meu kota dá só pão, ah porque minha tia dá só dinheiro”.

Agora fecha os olhos. Pensa na criança que mais gostas. Pode ser o teu filho, o teu irmão ou uma outra criança qualquer. Imagina-a sem pai, sem mãe. Imagina-a sem família, sem casa, sem terra, sem rumo… Imagina esse pequenino que sempre foi guiado, a ver-se de um momento para o outro, sem guia e cercado de ódio, de medo, de terror. Imagina o teu pequenino sem comida e sem água, só com fome. É duro imaginar né!!? E as nossas crianças que são educadas com valores, com o mínimo indispensável, sem tantas privações…muitas tornam-se adultos maus, sem escrúpulos, agressivos… O que é de esperar destes meninos e meninas, que vão ser dentro de poucos anos os adultos angolanos? O que é de esperar deste país?

Não quero ser propagandista, dizer coisas muito bonitas sem resultados práticos… O que eu queria mesmo era que as crianças tivessem tanta importância em Angola como tem o petróleo, os diamantes, as fortunas que se acumulam… Não porque são pequeninos e “tudo o que é pequenino é bonito”, nem porque cai bem dizer isto… Apenas porque o futuro de Angola não é só o petróleo e os diamantes, o futuro de Angola também são as crianças. Assim, na próxima vez que uma criança te pedir alguma coisa, não digas logo “não tenho nada”, pensa nisto e lembra-te que tens sempre algo, nem que seja um bocadinho de ti!
Entendo que perpetuar a “esmola” pode também perpetuar o recurso à mesma, tornando-se num ciclo vicioso. Mas, já que não há muitas alternativas a isto acho que por enquanto é nosso dever, até encontrar alternativas…

Se tiveres alternativas, aceito sugestões para mudar qualquer coisinha… Talvez sozinha não consiga fazer muito mas se nos juntarmos, talvez possamos juntos encontrar uma solução!

“O importante não é mudar o mundo, é mudar um bocadinho dele.”

Sara Carmo
Shara

6 comentários:

Anónimo disse...

Uma imagem dramática da realidade sem dúvida. "Cruelmente" muito bem escrito. Mas penso que o mais importante que a Sara Carmo aqui escreveu é o seguinte:

""Mas, já que não há muitas alternativas a isto acho que por enquanto é nosso dever, até encontrar alternativas…""

O nosso dever tem de ser o de encontrar alternativas... já, AGORA! Não podemos deixar o tempo passar e continuar a dar esmolas enquanto esperamos que outro alguém venha criar alternativas. (Não quero com isto dizer que se devem abandonar as crianças a que se refere)

O futuro ainda o poderemos controlar de certa forma, mas peranto o passado somos totalmente impotentes. Por cada 10 pessoas que apontam as injustiças e crueldades apenas 1 aponta alternativas (estatistica à toa, mas fica a ideia). Pessoas com olhares no futuro são o que mais nos falta.

Não me leve a mal, mas penso que quem sabe escrever um artigo como este deve concerteza ser capaz de encontrar ou sugerir as tais alternativas. Força!!!

Shara disse...

Não me entenda mal... Concordo completamente c o q diz, as alternativas devem ser encontradas e realizadas agora, hoje, ontem... Enfim, o mais rapidamente possivel. Tal como tenho tentado fazer. Encontrei algumas alternativas minhas, formas d mudar alguma coisinha... Mas mesmo nessas formas e ainda q o meu trabalho permita realizar ajuda humanitária e alargar um bocadinho a minha consciencia social, sempre me deparei com dificuldades q, de uma forma ou outra, diminuem a capacidade d levar a cabo algo q realmente s veja. Pq, como é obvio, tambem não me quero limitar a dizer "está mal" sem sugerir formas d mudar. So q sinto q o q faço surte mt pouco resultado, e sinto sempre q é pouco. Axo q ainda q faça alguma coisa, sozinha é sempre pouco. Dai procurar sugestões. Pq n sou perfeita logo estou apta a sugestões e pq podem haver outros caminhos q fazer as mesmas coisas. Não procuro ideias para iniciar algo, apenas sugestões para continuar algo q ja está começado. Obrigado.

MN disse...

É um grande passo estar aqui a conversar sobre esse tema, só isso em si já demonstra que estamos em sintonia com alguns problemas da nossa emergente sociedade angolana. Acho que não nos compete encontrar vias ou soluções mas sim sensibilizar e despertar. Não temos o poder constitucional para levar a cabo nenhum projecto, podemos sim abraçar projectos que as autoridades de direito levem a cabo e nos peçam participação activa.

Infelizmente, no nosso pais estamos muito distantes dos nossos dirigentes, não sei como podemos chegar a eles nem sei se eles estão interessados nessa interacção.

Por ano, gasta-se mais em viaturas para a Assembleia da Republica, para os deputados e seus familiares, do que em ambulâncias para o país inteiro. Assim compreendemos o distanciamento entre nós e políticos.

A solução que eu encontro é aquela que a muito vos tenho martelado! Sejam CIDADÃOS, continuem a mostrar o vosso descontentamento, escrevam para os jornais, falem á rádio, em programas que vocês possam intervir, escrevam para os blogs sobre tudo aquilo que vos incomoda e acham que está mal. Isso pode ser um catalizador para a solução de alguns problemas porque os governantes precisam de alertas.

Parabéns pelo tema. Excelente post.

MN disse...

Assembleia Nacional e não, por lapso, assembleia da república

Salucombo_Jr. disse...

como disse e bem Sara Carmo "...é mudar um bocadinho dele.", pois bem é o que acabaste de o fazer com este post muito bem estruturado, porque podes ter a certeza que depois de o publicares já alguma coisa ou alguem ajudaste a mudar nem que for o mais infimo posssivel.

Anónimo disse...

Muito forte este artigo... parabens Sara

Luaty