terça-feira, novembro 8

O MEDICAMENTO EM ÁFRICA É 300% MAIS CARO

O medicamento, considerado como um bem de consumo não durável mas essencial difere dos outros bens de consumo porque o doente não tem poder de escolha ou seja, o médico prescreve e o farmacêutico dispensa. Em África, cerca de 65% do total de medicamentos vendidos são-no, geralmente, na capital, onde se encontram as elites e o respectivo poder de compra.

Os medicamentos são uma resposta simples a muitos problemas que se colocam nos países de difícil evolução desde que se encontrem disponíveis, acessíveis, a bom preço e sejam correctamente utilizados. Pergunte-se a qualquer mãe africana por algo premente de que necessite. A resposta é: medicamentos. O abastecimento regular de medicamentos é uma componente fundamental para um bom funcionamento de qualquer sistema de saúde. A importância do medicamento é de tal ordem que quando o hospital ou dispensário estão abastecidos, a sua procura por parte dos utentes aumenta em cerca de 50%. A maioria dos governos africanos ainda não compreendeu como é que os medicamentos e os inseparáveis farmacêuticos podem contribuir para uma melhoria da prestação de serviços de saúde às populações.

Apesar de alguns governos africanos terem elaborado políticas nacionais de medicamentos, nomeadamente com a criação de listas de medicamentos essenciais e instituído controlos de qualidade, na verdade, tudo isto não passa de meras conjecturas e a promiscuidade medicamentosa continua. O acesso ao medicamento é deveras restrito na maioria dos países africanos, onde 60% da população não tem hipóteses de chegar ao comprimido. As rupturas de stocks são generalizadas e não há vontade por parte das autoridades em procurar uma solução para a situação. As autoridades africanas têm de compreender que os medicamentos têm de ser geridos por farmacêuticos e não por médicos; cada macaco no seu galho.

Há países africanos em que o conjunto de taxas fiscais a pagar pelo medicamento atinge os 35% para além do frete de transporte e respectivos seguros desde a origem. O mesmo medicamento, vendido em África custa mais 300% do que na Europa (principalmente medicamentos portugueses e franceses). As consequências desta situação estão à vista: a contrafacção, a falsificação e o contrabando de medicamentos são altamente rentáveis. é por este motivo que em análises efectuadas a muitos medicamentos constatou-se a presença de farinha de trigo em vez de ampicilina e de plantas silvestres moídas dentro de cápsulas como se de tetraciclinas se tratasse! Estes pseudos medicamentos a que se chamam " Bamakos" têm na realidade a sua origem em países useiros e vezeiros na vigarice. Nigéria, Ghana e Guiné-Conacri.

Os governos africanos, supostos acorrem às necessidades mais prementes das suas populações, devem elaborar uma estratégia para a implementação de farmácias no interior dos seus países porque como têm poucos farmacêuticos disponíveis, estes optam pelo mais fácil ou seja, ficam nas capitais que se encontram superlotadas de farmácias, algumas delas sem justificação para existirem. Uma das saídas era sensibilizar cada farmácia da capital a abrir uma filial numa outra cidade do interior com a sua contrapartida nas taxas fiscais. Por outro lado, não se pode compreender que os poucos produtos farmacêuticos disponíveis nos países africanos se encontrem ocupados com mero trabalho burocrático, quando poderiam ser incentivados pelos governos, através de empréstimos reembolsáveis, a abrir farmácias comunitárias.

Na realidade, o quotidiano mostra que as farmácias privadas com fins lucrativos têm menos problemas com falta de medicamentos mas muito mais problemas com a burocracia estatal. Quanto mais eficaz for a prestação de serviços por parte da farmácia mais cobradores de impostos lhe aparecem pela frente com uma actuação que parece dizer: "piorem a eficácia"!

Em África, cerca de 65% do total de medicamentos vendidos são-no, geralmente, na capital, onde se encontram as elites e o respectivo poder de compra. Os residentes das zonas rurais consideram geralmente os fornecedores privados, que exercem ilegalmente, de acesso mais fácil aos medicamentos, mas a qualidade dos seus serviços é sempre medíocre. Adiantemos que os medicamentos vendidos por estes fornecedores são muitas vezes extorquidos ao sector público ou importados de países vizinhos onde o controle de qualidade é nulo. Mas os governos africanos não podem ignorar esta realidade que representa 50% dos abastecimentos e devem tentar solucionar esta situação que representa um perigo para a saúde pública.

Por:
Dr. Rogério Pacheco

4 comentários:

ELCAlmeida disse...

Forte e feio como o meu querido amigo Rogério Pacheco sabe dar. Nem as cálidas águas, nem o belíssimo ar das ilhas maravilhosas o amaciam. Quando é para dar, Rogério Pacheco não perdoa. E ainda bem.
Um artigo para ler e meditar.
Um forte kandando Rogério.
Eugénio Costa Almeida

Anónimo disse...

Há dias saiu na Europa uma informação da OMS em que diziam que 90 e tal por cento dos medicamentos vendidos na rua em Luanda, etc, etc, etc,AFRICA, eram falsificados, e, portanto, não faziam o efeito desejado...Já toparam o perigo?Uma pesoa toma um antibiótico comprado narua, pra atacar uma infecção e----->feitiço da vizinha!!!morremos como cães em tempo de guerra.Ninguém nos olha nas clinicas privadas (da Fina por exemplo) e, se vais para o publico TAS LIXADO, MANO!

Lombmhula disse...

Que resultado se devia esperar de uma sociedade extraordinariamente desosrganizada onde os politicos, na vez de a organizarem, preferiram esposar os valores mais superfluos quais, a ganancia e a incivildade a custo unico de desimar os prprios irmaos. Nao nos resta muito tempo para assistir-mos mortes em massa enquanto deixamos ao ocidente (fortemente interessado) ao nosso exterminio e ao saque total daquilo que existe de bom nas nossas terras. A juventude manifesta um conformismo sureal,os adultos preferem abraçar o silencio, os velhos acabaram por afogar-se nas proprias memorias, e assim la vai um paìs deixado a misera sorte de si mesmo.

José A. S. T. Carvalho disse...

A saúde é um negócio o que é de lamentar, mas é um facto e o mercado Farmacêutica como um dos mais rentáveis do Mundo. É possível viver nesta realidade se cada um per si tiver senso comum ou bom senso na gestão dos seus próprios interesses. É sempre legitimo tirar partido de um negócio mas só e apenas quando ele é benéfico para as duas partes. O doente esse, viverá sempre no dilema de "quem decide não paga e quem paga não decide".O dever da responsabilidade deve ser da soma de todas as partes com a consciência de saber onde termina a nossa liberdade e começa a do outro. É tempo de Angola abrir o seu mercado ás Empresas Farmacêuticas e em conjunto criarem estratégias eficazes para acabar com o mercado paralelo. Hoje com a globalização o sucesso de um negócio, nunca passará pelo seu segredo mas sim pela partilha do mesmo. Aos Angolanos e a todos os que acreditam como eu, que Angola será um país socialmente forte, desejo que o tempo marque o ritmo de vida pessoal e social e que cada um saiba estabelecer as suas prioridades.
Um abraço,
José A. Carvalho