domingo, novembro 27

Se a Ilha de Luanda falasse...

Nguimbi, Xis de Ipsilon de dois mil e tal.

Estou novamente no serviço, essa porra que só me cansa, a minha rotina é sempre a mesma desde que vim do mato. Casa/Trabalho, Trabalho/Escola/Casa. Até a matricula que deram, ao meu carro coincide com o que faço. CT-06-18-EC. (Saio às seis e volto às dezoito. Casa/Trabalho/Escola/Casa)
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Dizem que aqui toda a sexta é dia do Homem, mas ainda nunca experimentei. Tenho que inventar uma prova lixada, à mulher, estudar para além da hora... Na escola é claro.
De repente tricoto ideias e… surge a mais maluca. Ilha comigo para os prazeres da vida carnal. O espírito sobrevoa e já terá encontrado o seu lugar. Em casa.
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-Hoje é hoje! Esfrego as mãos e aqueço o carro. Gás!! Alguém tem de "pegar o maço" porque a cobra vai fumar. Logo na esquina à Maria da Fonte encontro fontes de expiação. Bem à direita de Luanda, ali mesmo, onde a SIDA e o sal se confundem. Uma grande fonte de prazer entregue à vadiagem limpando armas encravadas. Homens de mbunda sem carne fugida para a barriga da Heinecken e outras marcas espumosas.
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Que grande sorte! Deliro.
-Tio, aviso já. Só com camisa.
-Qual camisa qual quê pá? Cem paus sai ou não sai um judo?
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Cem duros é valor para uma noitada de muitas “apanha moedas” de cada mil burros. Vacilar seria condenar as panelas à greve e o chulo do marido sem copo. Nesta vida tem de haver cooperação entre o marido e a “mulher trabalhadora” e entre eu, o cliente. Se vier doença aguentamos todos.
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Maria Fonte com sua fonte de prazer. Ai que perna! Inesgotáveis montanhas ao relento juntam-se à afrodisíaca mbunda. Grande camião. Que tonelagem! O farfalho leva-nos ao silêncio do falecido zoológico. Aqui nem corvos nem pescadores, apenas odores de orgasmos recentes e outros por conseguir. Apenas farfalhos, do vento contra as árvores que se inclinam pedindo mais. Há quanto tempo não recebo tão violenta quentura!
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-Canta filha, canta meu bem que o microfone é todo teu…. Que doçura!Sabulo atordoado pelo medo e pela excitação sem saber por onde pegar. Essas miúdas são máquinas.
De repente a cobra se engasga. Cospe e fumega. Contrai-se nos músculos vagueais. Na imensidão do prazer a escuridão desaparece. À frente um homem empunha uma Star ou Walter, sei lá que marca era a pistola…. Maka! kiá!!!
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-Jovem desce é a minha vez!
Atrapalho-me entre o ligar o carro, puxar as calças ou baixar o vidro. Nisto reparo que é o polícia da guarda marítima da Ilha que acabava de corrigir.
-Jovem da trás não veste. Tu aí, abre a porta e vamos à esquadra. Tens que explicar o que estavam a fazer. Isso é atentado ao pudor.
-À esquadra? Quê isso? Então um camarada já não pode mais namorar?
Enchi o polícia de perguntas que me respondeu apenas com o cano apontado. No traseiro do carro, só lágrimas.
-Mas, Sr. Agente já não se conversa?
-Sr. Agente não, chefe! Corrigiu com rudeza facial o polícia.
-É que, Sr. Chefe, tenho aqui qualquer coisa que dá para um saldo. Quero resolver o assunto localmente.
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E o assunto foi resolvido, porém permanece a vergonha. Com ela a reflexão de sempre. Ai se a Ilha falasse. Quantos lares permaneceriam intactos…quantos pais morreriam de trombose…quantos, se... Se a Ilha falasse? Por isso tentarei falar por ela através de verdades e histórias de ouvir contar.
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Por:
Soberano Canhanga
in Olho Atento

4 comentários:

criacuervos disse...

Olha só acabei de descobrir teu blog... cara, muito bom... é aquela coisa a gente sempre fala de globalização mas não tem idéia do q se passa no resto do mundo... mesmo com gente q fala a nossa própria língua...
du caralho, véio !!!

Rosario Andrade disse...

Excelente!!!! Muito, mas muito bom!

Cumprimentos de Inglaterra!
Abracicos!

O´mbaka disse...

Excelente! É pena que seja tão mau o que contas, mas o que fazer, é um dos muitos problemas que enfermam a nossa querida Angola

luar disse...

Descobri hoje o teu blog fala de uma Angola que mal coneci mas foi o berço de meu avô e meu pai eu vim de lá com 5 anos e sempre tive uma grande vontade de voltar e conhecer a terra que meu pai tanto amou e também um pouco mais sobre o homem que mal conheci. Marisa Leitão